Reconhecer quem serve bem, sem deixar de pensar criticamente
Um artigo publicado anteriormente neste jornal procurava lançar um olhar crítico sobre o perfil de quem, nos dias de hoje, se candidata a cargos autárquicos. Fê-lo a partir de uma observação abrangente, nacional, e com base numa preocupação genuína com a qualidade da representação política no nosso país. Essa reflexão, por mais incómoda que possa ser, é necessária.
No entanto, importa agora complementá-la e clarificá-la, para evitar que se interprete a crítica como um ataque àqueles que, com mérito e dedicação, servem as suas comunidades
É fundamental sublinhar, e agora com ainda maior ênfase, que a maioria dos candidatos e autarcas em funções são pessoas sérias, dedicadas e movidas por um autêntico sentido de missão pública. São homens e mulheres que, vindos de diferentes quadrantes políticos, contextos profissionais e percursos pessoais, assumem a responsabilidade de representar as suas comunidades com esforço, integridade e sacrifício.
Esses autarcas, que tantas vezes atuam longe dos holofotes são o verdadeiro alicerce do poder local em Portugal. São eles que garantem a gestão diária das freguesias e municípios, que escutam os problemas dos cidadãos, que trabalham para resolver constrangimentos com recursos limitados, e que mantêm viva a proximidade entre instituições e população. Merecem, por isso, respeito, reconhecimento e confiança.
A análise feita no primeiro artigo não ignorava a existência destes bons exemplos, pelo contrário, começava por reconhece-los, mas também procurava alertar para um fenómeno que, embora minoritário, é real: a presença de candidaturas motivadas por conveniência pessoal, ausência de alternativas profissionais, ou lógicas de dependência partidária que nem sempre favorecem os mais capazes. Identificar estas situações não desvaloriza quem serve bem; antes pelo contrário, pretende proteger e distinguir quem serve com qualidade daqueles que apenas ocupam lugares.
Importa, por isso, recentrar a mensagem: a política autárquica não está dominada por oportunistas. Existem casos preocupantes, sim como em todas as esferas da sociedade. Mas o que se vê, em larga escala, é uma maioria de autarcas que encara a política como serviço e não como estratégia de ascensão. São essas pessoas que mantêm o funcionamento da democracia local, que enfrentam diariamente o escrutínio público e que continuam, com resiliência, a apostar na participação cívica.
Entendo que a crítica e o elogio são faces complementares de uma cidadania adulta. É possível, é necessário, manter um olhar crítico sobre o sistema político, sem por isso desmerecer quem o serve com honestidade. É possível defender o escrutínio sem fazer julgamentos morais sobre os indivíduos. E é possível, como se procurou fazer nos dois artigos, reconhecer o mérito sem perder a exigência.
Não escrevo a partir de qualquer posição de superioridade moral, nem, devo sublinhar, a partir de uma lógica de oposição a quem ocupa cargos públicos.
A minha intenção nunca foi desvalorizar quem participa, mas contribuir para que essa participação continue a atrair os melhores. A política local e nacional precisa disso: de ser um espaço onde o mérito, a competência e a entrega sejam valorizados. E felizmente, muitos dos nossos autarcas personificam exatamente isso.
A política é feita de representantes, mas também de cidadãos atentos. Entre a crítica construtiva e o reconhecimento merecido, há espaço para fortalecer a democracia. E é nesse espaço que devemos continuar a falar.
N.R. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações da Direção do RMJornal, mas não é por isso que deixam de ser publicados
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Concordo que existe quem se lance à causa pública por imperativo de consciência – contribuir para o bem da sua coletividade. E isso é um bem que devemos valorar. Defendo, porém, que cada candidato dê a conhecer aos eleitores a profissão que desempenha fora do palco político. Aquela que o sustenta e à sua família. Para mim, é condição para a confiança que o voto pressupõe