Início>Atualidade>Quem quer ser autarca hoje?
Ser Candidato

Quem quer ser autarca hoje?

Ser autarca hoje?


Quem se candidata, nos dias que correm, a cargos autárquicos?

O que leva alguém a colocar “o nome num boletim de voto” e a assumir a responsabilidade de representar uma comunidade? A pergunta é desconfortável, mas inevitável. E a resposta, embora multifacetada, tende a expor uma realidade que poucos querem encarar: nem sempre são os mais preparados, os mais qualificados ou os mais comprometidos com a causa pública que ocupam os lugares de decisão.

Cada vez mais, a política local parece atrair quem nela vê uma oportunidade e não quem a entende como um dever.

À partida, poderíamos esperar que os candidatos autárquicos fossem figuras com provas dadas na sua comunidade, cidadãos atentos, ativos, que se destacaram por ideias construtivas ou pela participação cívica. Esperaríamos encontrar entre eles profissionais competentes, com experiência relevante e vontade de contribuir para o bem comum. No entanto, essa imagem ideal tem vindo a esbater-se. A realidade mostra-se mais complexa e, por vezes, desconcertante.

O perfil do candidato autárquico contemporâneo oscila entre o mérito e o oportunismo. Há ainda quem se envolva por sentido de missão, movido por valores e por um desejo genuíno de melhorar as condições da sua terra. Mas também há, cada vez mais, quem entre na política por razões menos nobres: para obter uma visibilidade que não conseguiu noutras áreas, para assegurar um salário mais estável, ou mesmo para aceder a oportunidades que, pela via profissional, nunca alcançaria.

A política, e em particular a política local, tornou-se para muitos uma espécie de “plano B”  uma alternativa à falta de perspetivas no sector privado ou uma tentativa de construir uma carreira pública a partir da filiação partidária. E, neste contexto, começa a pesar mais a empatia superficial do que a competência técnica, mais a retórica do que a visão, mais a obediência ao partido do que o pensamento autónomo.

Os partidos, pressionados pelas suas próprias dinâmicas internas, muitas vezes não privilegiam os mais capazes. Optam pelos mais disponíveis, pelos que garantem votos, mesmo que pouco ou nada tragam em termos de conhecimento, visão ou capacidade de gestão. A política autárquica, em vez de ser um palco de excelência cívica, torna-se frequentemente o território de uma militância acrítica ou de uma ambição pessoal disfarçada de vocação pública.

Neste cenário, multiplicam-se os casos em que o altruísmo, a entrega à causa pública ou a crença profunda num projeto político cedem lugar a motivações mais pragmáticas: garantir uma colocação mais confortável, alcançar visibilidade social ou aceder a uma estrutura de poder que, noutras vias, seria inalcançável.

Não se pode ignorar também o reverso da medalha: muitos dos melhores profissionais, com carreiras consolidadas e bem remuneradas, resistem a envolver-se na vida política. Não por falta de interesse, mas porque percebem que os custos pessoais, financeiros e reputacionais de entrar nesse universo são, muitas vezes, desproporcionais. Trocar uma carreira segura por um cargo exposto, precário e sujeito ao escrutínio permanente é, para muitos, uma decisão que simplesmente não compensa. E quem os pode censurar?

Resta então a política para os resilientes, os idealistas, mas também — e preocupantemente para os oportunistas. Se os mais preparados se afastam, e os mais motivados apenas por benefício próprio se aproximam, a consequência é inevitável: o empobrecimento da gestão pública local, a degradação da confiança democrática e a perpetuação de um sistema que não se regenera.

A política não pode ser um refúgio, nem um trampolim. A politica precisa, urgentemente, de ser o espaço onde os melhores se colocam ao serviço de todos. É esse o compromisso que devemos exigir dos nossos representantes, dos nossos partidos e, em última instância, de nós próprios enquanto cidadãos.

A política local entre a proximidade simbólica e a exigência de projetos com conteúdo

Nas campanhas autárquicas de hoje em dia, tornou-se habitual ver os candidatos em quase todos os eventos da terra: festas populares, jantares de associações, provas desportivas, inaugurações de obras ou simples encontros recreativos. Esta presença constante, por vezes quase obrigatória, vem quase sempre acompanhada de uma fotografia tirada no momento certo e publicada nas redes sociais, com uma frase curta e simpática.

A pergunta impõe-se: estará a política local a transformar-se numa sucessão de aparições públicas, em vez de um espaço de debate de ideias e apresentação de propostas para a freguesia ou concelho?

A resposta não é linear.

A proximidade entre eleitos e eleitores é, e deve continuar a ser, uma marca das autarquias. Faz parte do trabalho político estar presente na vida da comunidade e participar nos momentos importantes. Mas quando essa presença passa a ser mais uma oportunidade para “mostrar-se” do que para ouvir ou explicar, corre-se o risco de empobrecer a política local.

Hoje, muitos candidatos preocupam-se mais em aparecer do que em convencer. Estão onde há público, onde há fotografia, onde se pode dizer “estive lá”. E com a força das redes sociais, esta lógica da imagem ganha ainda mais peso: quanto mais se aparece, mais se partilha; quanto mais se partilha, maior a sensação de proximidade, mesmo que não haja uma ideia concreta por trás dessa presença.

Claro que muitos eleitores continuam a valorizar quem está próximo, quem dá a cara, quem se mostra disponível. E isso é legítimo. Mas há também quem comece a notar que estas campanhas se repetem, que se torna difícil perceber o que cada candidato propõe de diferente, o que verdadeiramente pensa para o futuro da sua terra. Sinais de cansaço e desconfiança começam a surgir.

Um desafio para descortinar

É aqui que está o desafio: como equilibrar a necessidade de proximidade com a exigência de conteúdo? Como fazer com que uma campanha não seja só um desfile de presenças, mas um verdadeiro momento de debate, de confronto de ideias, de esclarecimento?

Apesar do ruído da imagem, continuam a existir candidaturas sérias, com programas bem pensados e soluções concretas para problemas reais. Existem boas experiências de governação local, com inovação e participação. Mas essas iniciativas, muitas vezes, não têm o destaque que merecem, seja porque não se comunicam bem, seja porque o espaço público está ocupado com mensagens mais curtas, mais simples e mais fáceis de consumir.

Não devemos perder de vista o essencial: os projetos ainda contam. Os programas eleitorais não são apenas papéis formais, são (ou deviam ser) o ponto de partida para se avaliar quem está preparado para liderar uma autarquia. E para isso, é preciso dar espaço à explicação, ao debate, ao contraditório.

Neste contexto, o papel da comunicação social local é crucial. Cabe aos jornais, rádios e plataformas digitais fazer perguntas, aprofundar temas, comparar propostas. O jornalismo de proximidade tem a força de estar atento ao que realmente importa na vida das pessoas e pode ser um aliado importante para que as campanhas deixem de ser apenas imagem.

O valor da política local

A política local tem um valor enorme. É nela que se decidem coisas concretas: o transporte escolar, o centro de saúde, a reabilitação de ruas, o apoio às associações, os espaços verdes, a habitação, entre muitos outros aspetos que influenciam o dia a dia. É também neste espaço que se pode construir uma relação mais próxima entre eleitos e eleitores, mas com responsabilidade e com substância.

O problema não está em tirar selfies. O problema está quando a selfie substitui o projeto. Quando a presença pública serve apenas para “mostrar que se esteve” e não para dizer ao que se vem. É esse o risco que enfrentamos. E é essa a pergunta que todos, candidatos e eleitores, devemos fazer: queremos ser governados por quem aparece, ou por quem propõe?

N.R. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações da Direção do RMJornal, mas não é por isso que deixam de ser publicados

Este artigo só é possível graças aos nossos assinantes e anunciantes.
Se acha importante a imprensa regional séria e independente faça a sua assinatura ou anuncie connosco

Benedito Roldão
Benedito Roldão é o pseudónimo de cidadão riomaiorense, que por razões de liberdade de expressão, escreve sobre pseudónimo. O RMJornal, respeita em pleno o pedido dos seus colaboradores na preservação da sua identidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.