Opinar: um direito inalienável e um dever cívico.
É imperativo refletirmos com rigor e serenidade sobre a forma como o debate político e público tem vindo a ser conduzido na nossa sociedade.
Com demasiada frequência, quem se dispõe a expressar uma opinião sobre as ações ou omissões no âmbito local, é relegado a uma posição de pouca legitimidade, como se apenas determinadas vozes tivessem direito a ser ouvidas e as restantes devessem manter-se em silêncio.
Este fenómeno não se restringe à divergência partidária. Afeta igualmente cidadãos desprovidos de filiação política, sem participação em associações ou cargos públicos ou privados. Um cidadão comum, no pleno exercício dos seus direitos democráticos, vê frequentemente a sua intervenção acolhida com reservas injustificadas ou até mesmo desconfiança.
A participação de todos neste contexto é assimétrica, em espaços como as diferentes redes sociais, em que se apresentam, de modo anónimo, publicações, digamos polémicas, ou com a intenção de gerar polémica, vemos alguma participação de comentários e outras interações quase sempre também de modo anónimo.
Por outro lado em órgãos de comunicação, a leitura é alguma, mas a participação, obrigatoriamente sujeita a outros filtros de identidade é escassa. E este procedimento torna-se ainda maior quando se trata de órgãos como dimensão local.
A possibilidade de um simples gosto, ou ainda mais de um comentário, parece estar sempre reprimido, dada a facilidade com que o seu autor pode ser descoberto, e por consequência alvo de “represálias”, e mesmo que estas sejam apenas uma espécie de episódio paranoico do autor ou autora, só o facto de existir essa perceção, este é em si mesmo, revelador de uma coerção latente em relação à crítica.
É preocupante que o exercício legítimo da crítica seja frequentemente confundido com um ataque pessoal. Questionar, identificar falhas ou propor melhorias não pode ser entendido como uma tentativa de deslegitimar o trabalho dos responsáveis políticos. Antes pelo contrário, num regime democrático sólido, o contraditório é uma ferramenta indispensável para assegurar a transparência, a eficácia e a qualidade da governação.
Ao analisarmos a “árvore” das decisões políticas locais, é necessário ter a capacidade de observar também a “floresta” — a totalidade do panorama. Existem políticos competentes, empenhados e dedicados, cujo trabalho merece o reconhecimento e o respeito da comunidade. Porém, naturalmente, há também aqueles que não correspondem às expectativas legítimas dos cidadãos. Reconhecer esta realidade é um exercício de cidadania responsável, que deve ser feito com respeito e sentido crítico.
O escrutínio permanente é essencial para corrigir rumos, preservar a proximidade entre a governação e os cidadãos, e evitar que a política se transforme num espaço fechado e exclusivo.
Opinar é um direito universal, independente de cargos ou filiações partidárias. Muitas vezes, as opiniões divergentes nascem do mesmo espírito de serviço público que anima quem ocupa cargos políticos, mas expressam outras perspetivas e prioridades.
É fundamental, por isso, que as opiniões discrepantes sejam acolhidas como uma oportunidade para o diálogo, o aperfeiçoamento e a construção coletiva de comunidades mais justas e coesas.
No final, beneficiam desta dinâmica os políticos que se submetem ao escrutínio com humildade, os cidadãos que participam com responsabilidade, e, sobretudo, a comunidade onde todos residimos. Só assim a democracia se afirma plenamente: plural, inclusiva e verdadeiramente representativa de todos.
Num momento em que a liberdade de expressão tanto anda na “boca do povo”, por discussões com assuntos menores, era bom que todos nós nos lembrássemos de que o direito à opinião é a essência desse direito, consignado na Constituição da República Portuguesa (artigo 37º) e na Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo 19º).
O RMJornal, não se afastará desta que foi, é, e será a sua linha editorial, bem explícita no seu estatuto editorial: Informar de modo pluralista, independentemente de todas as posições de ordem política, religiosa e onde cabem todos os assuntos relevantes para a região.
