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Medicina a mais?

Actos médicos a mais, Senso Clínico a menos, Medicina nas horas da amargura!

Depois de em Março de 2022, o British Medical Journal – BMJ, publicar um artigo de opinião, intitulado “The illusion of evidence based medicine“, esta mesma reputada, e mais antiga revista na área da medicina, publicou em junho do mesmo ano um outro artigo com o título “A system reset for the campaign against too much medicine“, que traduzimos para “Uma reinicialização do sistema para a campanha contra medicina a mais”, onde reflecte sobre o actual fardo a que estão sujeitos os actuais sistemas de saúde, considerando que excesso de diagnóstico e de tratamento podem agravar a situação ainda mais.

É exactamente a frase “O actual fardo a que estão sujeitos os actuais sistemas de saúde, é sem dúvida agravado pelo excesso de diagnóstico e de tratamento” aquela que inicia a Escolha do Editor do BMJ.

Se o leitor acha que este tema é novo, está enganado, em Abril de 2002 esta reputada revista, publicou um número sobre o tema do “excesso de cuidados médicos”, e entre os quais podemos ler artigos como “é necessário agir para deter a “propaganda das doenças”, (tradução livre de Action is needed to stop “disease mongering”), e entre outros um sobre a medicalização do parto pelos obstetras (ver aqui).

Nesse mesmo número, de Abril de 2002, o editorial com o título “Medicina a mais?“, assinado por Ray Moynihan, journalista e Richard Smith, editor referia:

A maioria dos médicos acredita que a medicina é uma força do bem. Por que outra razão se teriam formado? No entanto, embora todos conheçam a possibilidade da medicina prejudicar individualmente pacientes e populações inteiras, presumivelmente poucos concordariam com Ivan Illich que “a instituição médica se tornou uma grande ameaça à saúde”. Muitos poderiam, no entanto, aceitar o conceito do economista da saúde Alain Enthoven em que aumentar os procedimentos médicos em determinado momento se pode tornar contraproducente e produzirá mais mal do que bem. Então, onde está esse ponto, e será que já o alcançamos? Ray Moynihan, Jornalista e Richard Smith. Editor

Posteriormente em 2015, o BMJ lançou a campanha Too much medicine: the challenge of finding common ground (Medicina a mais: um desafio para encontrar uma base comum), a partir de um editorial:  e onde podemos ler que com muita frequência, os pacientes são feridos por cuidados médicos desnecessários ou excessivos, e que medicamentos a mais alimentam o desperdício e o aumento dos custos de saúde; pretendendo com essa campanha e esta número temático especial lançar mais luz sobre o problema.

Claro, conforme referem os editores, não é fácil saber quanto é medicina a mais, mas podemos ler nesse artigo afirmações que irão com toda a certeza deixar o leitor inquieto talvez até apreensivo, como Barratt afirma, à cerca da mamografia ela transforma “mulheres bem-sucedidas em pacientes que são expostas a todos os riscos das terapias contra o cancro”

Esta afirmação que merecerá outro artigo, deixa no entanto o alerta que vários países desenvolvidos, não tem uma boa opinião, por diversas razões sobre o procedimento das mamografias com método de diagnóstico precoce do cancro da mama.

O foco, tem de ser centrado cada vez mais virado para o doente, e não para uma escalada do uso cada vez mais protocolado de procedimentos médicos, baseados nos exames ditos objectivos, que não param de limitar a intervenção do médico, e passar a autoridade para os donos da opinião formada, as famosas guidelines, ou melhor pelos “donos” das ditas.

Obviamente, que a facilidade de acesso aos exames analíticos, e imagiológicos são um avanço que não pode ser desperdiçado, mas neste momento o investimento na formação do sentido clínico dos médicos, deu origem a uma formação estereotipada, fundamentada na ilusão da EBM, ou medicina baseada nas provas, erradamente traduzido por medicina baseada na evidência, num claro neologismo snobe.

Mas voltemos ao artigo de março de 2022, a ilusão da medicina baseada nas provas, em que o autor escalpeliza os perigos da subjugação da ciência ao poder dos grupos financeiros, e o domínio de várias estruturas desde as organizações reguladoras e fiscalizadoras supostamente independentes, bem com da própria academia, de que o leitor poderá ver a análise realizada pelo Prof. Campbell no seu próprio canal de Youtube.

Por último, o médico Luís Campos publicou no público no passa dia 5 de março de 2023 um artigo de opinião, que diz que a tendência de recorrer a médico de especialidade, cada vez mais super especializados, cardiologistas com subespecialidades, ortopedistas que se debruçam só sobre problemas de uma articulação, para citar só alguns exemplos, faz com que se perca o sentido “holístico” “imprescindível, …para compreender que um doente não é a soma dos órgãos ou sistemas que o compõem” Este é um dos problemas que afecta o SNS — esta forma de cuidar!

É todo o paradigma da saúde que tem de ser repensado e era sobre isto que os responsáveis políticos deveriam estar a reflectir, de outro modo, podemos por mais recursos de toda a natureza, quer técnicos, financeiros ou humanos e o problema só se avolumará – é o cão a morder a cauda.

A eutanásia, e a medicalização dos partos, são uns excelentes exemplos para refletir sobre este tema, lato sensu da iatrogenia, a que voltaremos.

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Editor Web
António Moreira Prof. Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém Escola Superior de Desporto de Rio Maior Doutorado em Ciências do Desporto - UTAD Presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Medicina Chinesa Especialista em Medicina Tradicional Chinesa pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar - ICBAS da Universidade do Porto É Director do RMJORNAL.com
https://rmjornal.com

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