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Envelhecer não pode ser sinónimo de esquecimento.

Envelhecer não pode ser sinónimo de esquecimento.

Envelhecer não pode ser sinónimo de esquecimento.

Num país onde os desafios da modernização local se multiplicam, é frequente vermos autarquias empenhadas em políticas de captação de investimento, de apoio à fixação de empresas, na requalificação da rede viária, na expansão da rede de água e saneamento, bem como no reforço da atividade cultural, desportiva e associativa. São esforços visíveis, legítimos e necessários para garantir um futuro sustentável e atrativo às comunidades. No entanto, quando olhamos para as prioridades locais por esse país fora, impõe-se uma pergunta que raramente ganha destaque: o que está a ser feito por aqueles que, durante uma vida inteira, trabalharam para tornar possível tudo o que hoje se constrói?

Refiro-me à população sénior, que cresce de forma acentuada em muitas regiões do país, particularmente no interior, e para a qual muitas vezes faltam respostas adequadas. Nos lares, nas casas de repouso, nos centros de dia e, sobretudo, nas suas próprias casas, há milhares de pessoas que vivem os seus últimos anos entre rotinas solitárias, doenças crónicas e a memória de uma vida ativa agora substituída por um certo silêncio social. Ainda que existam estruturas de apoio, é difícil não notar que a visibilidade pública e política destas pessoas é quase sempre residual.

A questão da saúde mental dos idosos merece atenção especial. A solidão, o abandono emocional, a escassez de estímulo e o afastamento familiar são ingredientes que, conjugados, resultam em quadros de depressão, ansiedade ou perda cognitiva progressiva. Muitos destes sinais passam despercebidos ou são naturalizados como “parte do envelhecer”, quando, na verdade, são sintomas de carência de políticas públicas mais humanas, mais próximas e mais integradas.

Sabemos que em vários concelhos do país têm sido dados passos importantes: programas de apoio domiciliário, transporte solidário, dinamização de atividades culturais para seniores, apoio às IPSSs locais, oficinas de memória, criação de universidades seniores e até iniciativas de voluntariado intergeracional. São sinais positivos. Mas serão suficientes? Chegam a todos? Têm continuidade, estrutura, presença real no território?

Tomemos como exemplo o concelho de Rio Maior, um território de características mistas, com zonas urbanas dinâmicas e freguesias rurais mais envelhecidas e despovoadas. Também aqui se têm feito esforços visíveis: apoio a instituições sociais, iniciativas culturais pontuais, projetos com mérito que merecem reconhecimento. Mas quem conhece o terreno percebe que subsistem dificuldades: a cobertura de serviços é desigual, há idosos isolados, há limitações na resposta domiciliária.

Neste contexto, é legítimo e necessário perguntar se as autarquias estão verdadeiramente a dar o devido valor a estas questões, com a prioridade e o investimento que merecem. O envelhecimento da população não é uma exceção nem um fenómeno passageiro — é uma realidade estrutural. E as respostas a essa realidade devem ser igualmente estruturadas, contínuas e dignificantes.

Este não é um problema exclusivo de um concelho. É uma realidade transversal. Mas é precisamente por isso que a reflexão tem de acontecer localmente. As autarquias têm um papel insubstituível na resposta social de proximidade. Podem ser motores de projetos inovadores, facilitadores de redes de apoio, promotores de vida comunitária. E, sobretudo, podem e devem integrar os mais velhos como parte ativa da sociedade, não como destinatários silenciosos de assistência.

Cuidar dos idosos não é apenas garantir-lhes abrigo e alimentação. É proporcionar-lhes significado, presença, espaço de escuta e participação. É promover atividades regulares, articular os serviços de saúde com as estruturas sociais, envolver as escolas e os jovens num diálogo com quem tanto tem para ensinar. É investir na formação de cuidadores, na reabilitação das casas onde vivem os mais frágeis, e na criação de estruturas que garantam dignidade até ao fim.

É necessário, pois, que a pergunta fique no ar: o que estamos, realmente, a fazer por quem nos trouxe até aqui? Estamos a prestar homenagem com políticas ou apenas com discursos? Estamos a garantir presença ativa e apoio real, ou limitamo-nos a responder às urgências?

Talvez seja tempo de todos os municípios, dos maiores aos mais pequenos, do litoral ao interior, de norte a sul, olharem com mais atenção para os rostos enrugados da sua população. Porque envelhecer é um direito, e envelhecer com dignidade é um espelho da maturidade de qualquer sociedade. Em Rio Maior e em tantos outros lugares, a resposta a esta questão fará toda a diferença nos próximos anos.

N.R. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações da Direção do RMJornal, mas não é por isso que deixam de ser publicados

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Benedito Roldão
Benedito Roldão é o pseudónimo de cidadão riomaiorense, que por razões de liberdade de expressão, escreve sobre pseudónimo. O RMJornal, respeita em pleno o pedido dos seus colaboradores na preservação da sua identidade.

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