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A Rede

Carvão & Energia: 5 – A Rede

Por: Fernando Caldas Vieira

Ligações.

Sozinhos não somos nada.
É com esta constatação com que somos confrontados amiúde que quero introduzir o tema das ligações. Não me refiro só às ligações pessoais em que todos temos experiência dos relacionamentos na nossa vida, mas também às ligações físicas efetuadas através da contratação de serviços.
No suporte dessas ligações está a existência duma rede. Claro que para o nosso tema de fundo temos a rede elétrica, mas por exemplo num sistema de saúde, falamos de rede de cuidados primários. No quotidiano usamos a rede de gás ou as redes de telecomunicações. Neste caso, a novidade mais recente foi a rede 5G que nos põe a comunicar e a aceder a dados a velocidades nunca vistas. São sistemas evolutivos, portanto.

Redes elétricas.

Tal como nos exemplos citados, a rede elétrica permite o acesso à partilha de um serviço, a eletricidade, neste caso. Tem algumas caraterísticas específicas que valem a pena destacar:

  • Possui um suporte físico – os condutores. Fios, mais ou menos grossos, que se podem entrelaçar em cabos ou em linhas.
  • Podem estar enterrados, à vista ou suportados por postes (metálicos, de betão ou de madeira).
  • São caraterizadas por funcionarem com uma determinada tensão (medida em volts), conduzirem uma corrente elétrica, cuja intensidade é medida em amperes e possuírem uma resistência (unidade – Ohm) que resulta do tipo de material, da seção e do comprimento.
  • No seu dimensionamento tem-se em conta duas leis fundamentais que relacionam estas grandezas – a Lei de Ohm, que relaciona a tensão com a intensidade de corrente segundo a carga (o consumo) dos aparelhos ligados e a lei de Joule que permite calcular a dissipação em calor que ocorre nas resistências, ou seja, as perdas do sistema.

Depois desta revisão da matéria dada, ficamos habilitados a perceber o seu funcionamento.

Serviço.

Nestas redes elétricas estamos, portanto, a ligar os sistemas de produção, os geradores ou mais genericamente, as centrais aos consumidores. Daí serem denominadas redes de transmissão de energia.

De um modo geral, estamos a falar de levar a eletricidade aos consumidores: à casa das pessoas, às fábricas, às lojas, aos escritórios.

Por causa da tal lei de Joule, as perdas do sistema são minimizadas com o aumento da tensão da rede, que por sua vez também custa dinheiro. Os projetistas têm de obter um compromisso entre o custo da rede e o custo da sua exploração.

Para gerir estas infraestruturas, parte-se do princípio que elas pertencem ao Estado. São exploradas em regime de concessão por duas entidades que todos conhecemos:

  • A REN, Redes Energéticas Nacionais, detentora da concessão das redes primárias de eletricidade e de gás natural. Na eletricidade com as tensões de 150, 220 e 400 kV (AT) e no gás natural, a rede de alta pressão.
  • A E REDES, que atua como principal subconcessionária da chamada rede de distribuição. Esta rede foi concessionada aos municípios que negoceiam periodicamente com a subconcessionária as funções de exploração, incluindo os investimentos e a manutenção.

A atividade desenvolvida por estas empresas encontra-se regulada no âmbito da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, a ERSE, que aprova e supervisiona a sua atividade, bem como a sua remuneração tarifária.

Como funcionam

Temos assim a organização da rede elétrica, distinguindo a rede de transporte (REN) entre as centrais e as subestações e a rede de distribuição que liga os consumidores.

Daí que novos produtores de eletricidade tenham de ter a aprovação destas entidades para garantir que a rede é capaz de escoar a energia. O abastecimento de novos consumidores leva também à expansão da rede. A segurança aumenta com a interligação com Espanha e com a rede europeia. As redes podem evoluir de uma forma designada em antena (ramificando-se) ou em anel, em que cada ponto pode ser abastecido através de diferentes origens, melhorando a segurança do abastecimento.

Conclusão.

Este país assistiu a um processo notável de eletrificação, estando atualmente todo o território habitado com acesso à energia elétrica.

O Carvão esteve presente neste processo nomeadamente quando em 1945 uma linha ligou a Central da Cachofarra, em Setúbal à Central Tejo, em Lisboa. A primeira era detida pela Companhia das Minas da Borralha que tinha o dinheiro do volfrâmio!

Termino com a história curiosa, ilustrativa de como as pessoas aprenderam a lidar com o progresso.

Trata-se de o filho que ofereceu à mãe um frigorífico quando a eletricidade chegou à povoação. Admirada, a senhora pergunta:

O que é isto, filho? Para que serve esta coisa.
O filho tenta explicar:

Mãe, é um frigorífico. Pode guardar aí os restos.

Os restos? Quais restos?

Infelizmente há diferenças que ainda se mantêm hoje e a eletricidade não esbateu.

N.R. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações da Direção do RMJornal, mas não é por isso que deixam de ser publicados

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Fernando Vieira
Fernando Caldas Vieira, nascido em 1957, casado, de Tomar. Engenheiro eletrotécnico, licenciado e mestre pelo IST. Mestre em política, economia e planeamento da energia, pelo ISEG. Trabalhou no setor de produção de eletricidade, nomeadamente em centrais termoelétricas. Presidiu à ECOBA, Associação Europeia dos Produtos da Combustão do Carvão e ao grupo de trabalho de resíduos da Eureletric. Dedica-se à prestação de serviços de consultoria a empresas no campo da eletricidade, da energia e do ambiente.

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