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Carvão & Energia: 19- O GESSO

O Gesso

Dessulfuração. A técnica e Rio Maior

Concluímos a descrição dos produtos resultantes da queima de carvão com o gesso, que na realidade não resulta exatamente da queima deste combustível, mas dos sistemas de dessulfuração, ou seja, de retirada do enxofre dos respetivos gases.

O processo químico da combustão combina o enxofre com o oxigénio e na presença de água surge o ácido sulfúrico, H2 SO4.

A tecnologia que permite evitar o aparecimento das chuvas ácidas consiste em fazer passar os gases por uma suspensão aquosa de calcário moído, permitindo a absorção do dióxido de enxofre e manter as emissões abaixo de 200 mg/Nm3, limite imposto nas diretivas comunitárias referentes às grandes instalações de combustão.

O absorvedor é, pois, a designação dada ao equipamento em que se dá a reação de neutralização e oxidação. A fórmula química do processo é a seguinte:

O sulfato de cálcio (gesso) necessita assim de ser desidratado para ter valorização comercial, como se verá adiante.

No entanto as suas características são idênticas às do gesso natural.

Para uma maior eficácia destes equipamentos é conveniente utilizar calcário da melhor qualidade e com elevado nível de pureza. Uma das fontes de abastecimento, em Portugal, foi a empresa de Rio Maior, Sibelco.

Antecedentes. Paisagem lunar

Com a instalação em Portugal de sistemas de dessulfuração, em 2007/2008, os operadores das centrais térmicas necessitaram de encontrar um escoamento para o gesso. A quantidade produzida chegou às 170 000 t, no ano de 2011.

A tarefa de promover a sua utilização tinha a dificuldade adicional de Espanha ser o maior produtor europeu de gesso natural.

Se nada fosse feito, podíamos ficar com quantidades de material em aterro, que rondariam os 2 milhões de toneladas.

Anos atrás, já se tinha constituído no Lavradio, Barreiro um enorme passivo ambiental do fosfogesso gerado nas indústrias de fertilizantes fosfatados.

O aterro, mesmo bem acondicionado, ocupa uma área enorme, cuja melhor utilização foi a de servir de fundo para um videoclip da música Vertigo dos conhecidos U2:

U2 Vertigo | Portugal Video (Jacknife Lee remix) Rare

Não precisávamos em Sines ou em Abrantes de outro cenário assim.

Utilizações

A solução passou pelas aplicações mais comuns que são as grandes consumidoras:

  • – Regulador de presa no cimento;
  • – Gesso projetado para acabamento de interiores;
  • – Placas de cartão-gesso;
  • – Blocos;
  • – Argamassa autoniveladora de pavimentos;
  • – Enchimentos.

Como fatores favoráveis surgiram também duas realidades, que prevaleceram:

  • – O gesso produzido revelou-se de excelente qualidade.
  • – O mercado nacional das placas cartonadas e das placas de gesso laminadas, estava em desenvolvimento.

Conseguiu-se assim evitar importação de matéria-prima e o aterro preparado não teve utilização para além da armazenagem temporária com vista ao abastecimento.

Mais um caso de sucesso associado ao consumo de carvão, com impacto positivo no ambiente, nas empresas e consequentemente na economia.

Episódios irlandeses. O apagão

A empresa incumbente da República da Irlanda a Electricity Supply Board (ESB) portanto equivalente à nossa EDP, explorava a central de Moneypoint, localizada perto de Kilrush, no estuário de Shannon, e que é a maior  central elétrica da Irlanda, com uma capacidade instalada de 915 MW.

Pela data da sua construção e pela tecnologia aplicada, era considerada uma central gémea das de Portugal. Por esse motivo, o intercâmbio de experiências era frequente.

Em maio de 2012 teve lugar em  Dublin, um desses encontros em que foi explicada a opção portuguesa de ser produzir gesso desidratado – apesar do investimento ser superior, facilitava o escoamento do produto.

Não foi essa a opção da ESB e o gesso de Moneypoint foi maioritariamente depositado em aterro.

Nesse aspeto os Irlandeses foram pior que os portugueses.

No entanto, nesta altura, com as centrais portugueses encerradas e desativadas, é curioso saber o que sucedeu com a sua gémea irlandesa.

Mais que divulgar gráficos e fazer propaganda, a maneira de gerir um parque electroprodutor implica estudos e planeamento. Também aqui, a Irlanda mostrou como se faz:

A central mantem-se a funcionar até final de 2025, a carvão. Várias renováveis funcionam em conjunto, aproveitando a rede com os pontos de entrega. Os grupos existentes, em vez de irem para a sucata (à rica) vão continuar a funcionar a… fuelóleo!

Com menos emissões de CO2, flexíveis, ficam a cobrir a intermitência das renováveis e a usar os equipamentos despoluidores existentes para o SO2 e NOX.

O pessoal não vai precisar de emigrar nem de estudar Excel no desemprego.

Cá nem foi considerada uma solução destas, apesar da propalada transição justa.

Aqui a Irlanda bateu-nos completamente. Tanto mais que se repararmos que um dos objetivos do projeto de conversão é assegurar a regulação de tensão da rede.

Pois, daquilo que se sabe, a origem do apagão ibérico de 28 de abril esteve precisamente numa falha da regulação de tensão e de potência reativa.

Ironias do destino.

Conheça melhor a história de Moneypoint aqui:

N.R. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações da Direção do RMJornal, mas não é por isso que deixam de ser publicados

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Fernando Vieira
Fernando Caldas Vieira, nascido em 1957, casado, de Tomar. Engenheiro eletrotécnico, licenciado e mestre pelo IST. Mestre em política, economia e planeamento da energia, pelo ISEG. Trabalhou no setor de produção de eletricidade, nomeadamente em centrais termoelétricas. Presidiu à ECOBA, Associação Europeia dos Produtos da Combustão do Carvão e ao grupo de trabalho de resíduos da Eureletric. Dedica-se à prestação de serviços de consultoria a empresas no campo da eletricidade, da energia e do ambiente.

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