Início>Atualidade>Arrouquelas – O NOSSO RIO
Arrouquelas - O Nosso Rio

Arrouquelas – O NOSSO RIO

Do Nosso leitor António Rogério Jesuíno Bom, recebemos este texto que levamos até vós.
Se tiver gosto em escrever envie-nos os seus textos que após a análise da redação teremos todo o gosto em publicar

Sem dúvida que era – o nosso Rio – um grande gerador de riqueza para este povo aqui domiciliado.

António Rogério Jesuíno Bom

De margens bem tratadas, emparedando torrentes de água cristalina, por onde serpenteavam espécies piscícolas até á montante, em algumas curvas se afundava o seu leito, originando os pegos, que depois em dias de verão vinham a ser utilizados por homens e rapazes para o tão apetecido banho, também ai ficavam retidas várias espécies piscícolas, aqui e ali viam-se colocadas picotas, que em dias de maior calor, pela calada da noite, ainda se faziam ouvir, pelo ranger dos seus eixos, na azáfama do sobe e desce, extraindo ao rio o precioso liquido que, encaminhado pelas caleiras, se espraiava pelos terrenos vizinhos, dando mais vida às hortaliças e milheirais que cresciam nos campos férteis, próximos das margens.

As suas águas, foram em tempos bem recuados, também veículo de transporte de madeiras, essas que eram serradas pelos nossos artífices serradores, nos pinhais da região, e depois lançadas à água por Rio abaixo, onde nas margens, homens munidos de grandes varas, davam-lhe melhor encaminhamento, como no sitio das Passadeiras entre São João da Ribeira e a Vila da Marmeleira que entravam no Rio Maior, até chegarem ao Tejo. Mas porque o Tejo ai se espraiava, muitas das madeiras perdiam-se sem hipóteses de recuperação. Para resolver este problema foi depois feito um canal, entre a foz do Rio Maior e o estaleiro na Azambuja, no lugar das Virtudes, depois mandado ampliar pelo Marquês de Pombal, vindo a servir também para escoar os produtos agrícolas da Região, hoje denominada Vala Real, donde daqui depois o Rio Maior entra no Tejo.

Anúncio

Era comum ainda no início do século XX, vermos em dias de maiores chuvadas, quando o caudal galgava margens, homens com cana e “remolhão” (um atado de minhocas na ponta de uma cana) percorrendo as tapadas, olhando a torrente, em busca de um melhor local para a captura das enguias.

 Quando o volume do caudal diminuía, eram os barbos e o sável, e outras espécies, que subiam até montante, os quais não esbarravam no fundo de um qualquer Covo, colocado nos locais mais adequados por sábios pescadores (meu comentário adicional de 19.10. 2022 às 22H33).

Foi assim que nós, os Arrouquelenses de antanho, se habituaram a ver o seu RIO, tempos remotos que chegaram aos anos sessenta do século passado.

Não foram necessários muitos anos, para se processar uma tão grande transformação. Hoje, o nosso RIO, não é caminho para transporte de madeiras, não tem pescadores nas margens, e no seu caudal não ziguezagueia, RIO acima, nenhuma espécie piscícola, como não se banham homens ou garotos. Não tem picotas nas margens, não existem hortas, não verdejam milheirais e não desce água cristalina.

Porquê todas estas ausências serem hoje a realidade? Muitos são os homens que afirmam e reafirmam que o nosso RIO primeiro ficou morto e hoje está seco. No final do século passado ainda se assistia, nos dias de maiores chuvadas, a enormes torrentes de matéria fecal, vinda da montante, por uma qualquer exploração animal que engrossava o caudal, descendo dejectos, que em algumas vezes eram impedidos de chegarem a jusante, pois na margem uma qualquer árvore ou arbusto interrompia-lhes a viagem. Assim o nosso rio deixou de ser fonte de vida. Secaram as nascentes que lhe alimentavam o caudal e com escassez de chuva, sem água, não desempenha as suas funções, incapacitando para qualquer acto gestativo da nossa antiga flora.

Mas estava eu a reportar-me apenas a acontecimentos vividos por mim e a alguns relatos falados por antecedentes, por que de registos escritos (que eu saiba) nada existe, embora saibamos que a média de vida dos nossos antecedentes rondava 50 anos (meio século) ou pouco mais. Por aqui passaram muitos Povos e Raças, mas também sabemos que o caudal do RIO remoto, ao de hoje que relatei, era colossal, admitindo mesmo que só uma pequena parte da crosta terrestre neste local não era coberta por água. Por tudo isto, podemos concluir que a NOSSA TERRA fosse muito procurada, e, por isso, tivesse sido objecto de muitas disputas e longas deslocações de vários Povos com diversas culturas e saberes.

Sem querer narrar o que foi a evolução da terra ao longo de séculos, sou, nesta abordagem, levado a concluir que este local, há não sei quantos milhões de anos, estaria submerso e acredito que a água tenha vindo a baixar o seu volume progressivamente na mesma proporção do último século. Acredito que quando os primeiros terrenos ficaram a descoberto estas primeiras TERRAS tenham tido muita procura, em busca de alguns haveres (flora e fauna) para a subsistência e de metais preciosos que a água terá escondido ao longo de muitos séculos.

Como as únicas vias que os homens tinham disponíveis eram as navegáveis, eu deduzo que a ocupação de Portugal pelos Mouros até este local, a partir do ano 711, foi uma realidade e por aqui se fixaram, onde ainda há sinais da sua presença, (buraco dos mouros) e muitos outros muitos Povos terão navegado até estas bandas antes do Islão, como a língua é, ou julgo eu ser, o maior pólo de cultura, embora sofra sempre adaptações. Os Povos que por aqui passaram trouxeram seus hábitos e vocabulário, no entanto, por uma ou outra razão, cumpridas que as suas missões e conquistas, foram-se embora, mas por cá deixaram muitos hábitos, costumes e nomes (além de toponímias hoje enraizadas ou explícitas) em locais muito diversos.

Já admitimos que as principais vias de comunicação eram as navegáveis, e como ainda na nossa língua se diz (o barco quando encosta a terra, encosta ao cais ou ao porto), também Arrouquelas possui, ainda hoje, locais com nomes que nos podem justificar que os barcos aqui aportavam; temos o local do Porto das Maceiras,   Porto do Carro,  Porto Velho, Porto do Cuco ou do Coque. Este último talvez a fazer jus às redondezas, onde houve por ali exploração de minério e o barco aqui aportava para carregar o minério, ao acresce o facto de braçal não derivar de braço mas sim de BRASEL que significa FERRO. Já concluímos que as línguas sofrem adaptações, e talvez possamos admitir que de BRASEL tenha derivado BRAÇAL e dai para BRINÇAL, nome de quinta contígua a ARROUQUELAS. Quando os homens deram aproveitamento ao minério de ferro, já muito exploravam outros metais mais nobres, como ouro e cobre, com mais baixo ponto de fusão. Aqui, nestes lugares, até podemos associar o lendário jogo da malha em ouro, enterrado no cabeço ou outeiro da rota (ou roupa) e que se avista do átrio da igreja.

Mas também temoso Porto das “Maceiras” por estar praticamente encostado ao local onde se diz e comprova ter existido uma ferraria, onde se fundia e trabalhava o ferro e outros metais. Alguns povos chamavam aos moldes de fundição MACEIRAS, sendo provável que estas dessem o nome ao local onde os barcos vinham aportar para carregar os materiais moldados nessas Maceiras. Este local possui terrenos arborizados com características ideais aos ainda hoje suportam fundições, pois ao seu redor as árvores existentes eram o sobreiro, porque a sua madeira, ao arder, provoca elevado ponto de calor superior a outras madeiras e assim podendo atingir o ideal ponto de fusão dos metais: cobre, ouro, ferro, etc.

Como nota: tanto o Porto das Maceiras como Porto Velho e  Porto do Cuco ou do Coque são em locais onde a água se espraiava, tornando assim a corrente menos rápida, portanto mais fácil para barcos aportarem, encostarem e carregarem.

É curioso que temos outros locais de travessia do rio que não se designam por “Porto”; como a Sanguinheira, o Vale de Lobos, a Freiria, e as Ribeiras na passagem para Assentiz, todas elas em locais onde a água passa mais afunilada. Estas curiosidades merecerem  estudo mais pormenorizado por especialistas, que não eu.

Dos Fenícios :

A língua indígena ficou forçosamente nos mitos locais e não morrem com: mudanças estruturais políticas; transformações sucessivas da Sociedade. Os idosos vão recordando aos jovens os factos do passado sob a forma de ditos e de mitos valorizantes ou desprestigiantes.

Os documentos escritos não garantem mais fé que os orais, pois só passaram a escrita depois de orais! A fiabilidade depende de quem escreve, com que fins, quem paga, quem encomenda, mas a mais verdadeira é sem dúvida a etnológica.

Os textos de Ugari (século XVIII-XV a. C) a fonética fenícia organizava-se numa fonética de 30 sons incluindo as nossas cinco vogais. O actual alfabeto com 22 consoantes foi invenção dos Fenícios, e da escrita Fenícia derivaram a Hebraica, a Grega, e a Latina. O acadiano ou cananita foi a língua dos Impérios que compreendeu Fenícia, Síria, e Ásia Menor.

Do dicionário Fenício/Português eu extraí que: Tuppu em fenício diz-se tábua e o plural tábuas é diz-se Tuppi

Em Arrouquelas dizer tapume, quer dizer feito com tábuas, e os serradores usavam as costaneiras ou bordaneiras para venderem para tapumes (vedações de pátios e currais para animais). A evolução tuppi para o português tapume pode ser mais um sinal de que os Fenícios por aqui passaram, mais o facto de serem um povo metalúrgico ainda mais nos fazem acreditar que os locais, Porto das Maceiras, Porto do Cuco ou do Coque, Porto Velho, foram locais por si utilizados antes e talvez depois de serem vencidos pelos Hebreus

Os Fenícios eram mais civilizados e cultos que os Hebreus que os venceram. Os Fenícios eram navegadores (foram Almirantes de esquadras Persas), agricultores, comerciantes, metalúrgicos, enquanto os Hebreus eram pastores nómadas e tribais.

Foi Cain quem inventou a profissão de ferreiro. Tiro e Sidom foram Portos grandes no século VI. Ezequiel o profeta, previu a sua destruição por Alexandre pela inveja do labor dessas cidades.

Os Celtas eram um povo bárbaro e sem escrita, a primeira referência ao Povo Celta é feito por Hecateu de Mileto no século VI a.C. Os Celtas organizavam-se em tribos e dominavam desde a Península Ibérica até a Anatólia, a maioria foi depois conquistada pelos Romanos

Texto de António Rogério Jesuíno Bom

N.R. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações da Direção do RMJornal, mas não é por isso que deixam de ser publicados.

Gostou desta notícia faça a sua assinatura, ajude-nos a informar.

Anúncio

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.