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Sintonia, entre Mim e o Outro

Preferirmos sempre amaciar os corações perdidos como quem aconchega um bebé, diz mais de nós do que do outro.

Porque amaciar corações perdidos é fácil, basta para isso fornecermos um colo menos do que morno, reproduzir meia dúzia de frases feitas, embelezar o mundo de forma sonsa e esperar que o outro, emergido no seu desgosto, sorria e expresse uma emoção mais simpática de se acolher. Logo a seguir ficamos com uma sensação de dever cumprido muito satisfatória, que nos permite continuar o nosso caminho sossegados, cientes da nossa capacidade de acolhimento e de resolução estratégica de problemas alheios. Há poucas coisas tão prazerosas como esta.

Mais difícil, muito mais complexo, é ficar ali. É acolher com o nosso corpo o que o outro expurga no sofrimento, é agarrar na mão e deixar que doa, é sintonizar a dor, numa partilha próxima e quase fusional. É ter calma para esperar o tempo que for preciso, e é não ter medo de chorar também. Para tudo isto, necessitamos de saber o que fazer com as nossas próprias dores, com os nossos próprios medos, precisamos de tratar por tu o nosso emocional e permitir que também ele se descubra, em cada perda, em cada desgosto.

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Não me canso de procurar este caminho. Não me canso de acreditar nele como quem acredita num Deus maior, uma espécie de renovação permanente, de busca incessante, de corrida eterna para lugar nenhum em concreto. Na prática, sempre que me sinto mais perto do que eu encontro como objectivo, surge-me um novo desafio, tão ou maior quanto o anterior. Sempre que eu me entrego à expectativa do sucesso, e me julgo merecedora de um prémio qualquer, volto a cair, numa espécie de nova aprendizagem, sempre mais desafiante, sempre mais desorganizadora.

É que não raras vezes, também eu me apetece acolher com meiguice o sofrimento. Também a mim me apetece ignorar as essências e entrar directa na vida fácil, na superficialidade, na maquilhagem, na bijuteria barata das emoções. Também eu, apesar de conhecer os pressupostos, quero dizer que é a vida, que tudo passa, que amanhã será melhor, e que um dia destes nem te vais lembrar.

Por vezes permito-me, e em algum viés mais teimoso, num dia enfastiado, em algum momento mais bafiento, deixo soltar um (des)ânimo destes, quanto sinto que a direcção aguenta, e não carece de sintonia maior. Nesses momentos prossigo posteriormente com uma consciência clara do meu egoísmo momentâneo, que se sobrepôs à grande perante o outro, num disfarce quase perfeito, quase impossível de detectar a olho nu.

Mas noutros recuso-me. Escuso-me de dar ouvidos às dicotomias do certo e do errado, afasto-me de todos os moralismos, contrario todos os ditames e avanço, não sei se sossegada, se desassossegada, se crente ou descrente, se certa ou errada, em busca de possibilidades, sempre de possibilidades. De preferência de mãos dadas, numa mesma direcção.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.