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2023 – Concentro-me em meia dúzia de almas espelhadas pelo tempo, impressas em papel velho e a preto e branco, debruado a um bordado muito irregular (como a vida). Há sempre alguns que me olham directamente como a Mona Lisa nos olha nas paredes do Louvre

Escuto sempre com muita atenção o que me dizem os olhos dos meus antepassados.

Concentro-me em meia dúzia de almas espelhadas pelo tempo, impressas em papel velho e a preto e branco, debruado a um bordado muito irregular (como a vida). Há sempre alguns que me olham directamente como a Mona Lisa nos olha nas paredes do Louvre, apontados à nossa menina do olho, que não é mais nem menos do que tudo o que trazemos dentro e carregamos no corpo que nos acolhe a essência. Gostava muito dos olhos de Israel, eram sempre ligeiramente abertos, verdes cor de azeitona, enquadrados num perfil que se dizia ruim, mas do qual eu não conheço a ruindade. Apreciava os olhos de Albertina, a senhora dona de si, que tarde percebeu que não era dona de coisa alguma, nem do seu nariz, nem da sua vida, nem muito menos da sua morte ( ninguém é dono senão do nada). Dizia-se dela a luta, conheci-lhe bem melhor o abandono. Carmina, a mais bela de todos, a mais branca, a mais delicada, tinha uns olhos pequenos e amendoados, e essa olha-me todos os dias, sem falhar um, no papelinho em homenagem à vida que guardo desde o dia da sua morte. As festas trazem-mos sempre, muito embora já não haja Natal há mesa com todos,  nem lugar ou espaço para se falar deles, as defesas da maioria não permite que nos encontremos frente a frente. Todos apreciam mais a fuga no Bolo Rei, no frito mal amassado ( ninguém amassa como Albertina), no cabrito mal assado ( ninguém assa como Carmina), no vinho mal escolhido ( ninguém escolhe vinho como Israel). Não raras vezes encontro ainda os olhos de Rosalina, mais pretos do que o breu. Neles aprendi a cozinhar em lenha, a cozer bucho de cabra, a entrançar cabelos, a matar coelhos com um murro no lombo ( que obviamente não mato) e a roubar ovos às galinhas, para o pão de ló.

Nas festas sinto que me pertencem só a mim, num egoísmo que se fez ao hábito de guardar cá dentro o que poucos querem ouvir. Hoje, e para encabeçar a época, deparei-me com todos eles em casa próxima, sem esperar, uma espécie de encontro combinado pelo divino, sem comida, sem mesa, mas com olhos a olhar para mim. Estavam a sorrir-me, emoldurados em álbuns muito velhinhos, descolorados, e mais uma vez pude chorá-los sem que ninguém me visse chorar. Não tenho vergonha das lágrimas que verto, são um sal que me pertence e que solto sempre que me apetecer, regulam-me a alma, lavam-me o rosto, devolvem-me o chão. Mas não gosto de embaraçar o mundo, que teima em viver longe de tudo quanto dói. Como se a morte fosse um espinho que mata, quando na prática é apenas a vida. 

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Neste novo ano desejo-vos a serenidade de viverem com tudo o que a vida vos tem trazido. E que chorem e riam à medida do que vos for preciso. Contrariamente ao que possam julgar, podemos ser mais felizes se chorarmos mais.

E saúde a todos, também.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.

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