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O Filme das Nossas Vidas

É com orgulho que muitos de nós sentimos que a nossa vida dava um filme. É com ousadia que pretendemos sempre que a nossa história seja tida como uma sequência de episódios consideráveis, como se eles fossem únicos, importantíssimos, isolados num universo único de individualidade.

Esquecemos, por certo estamos distraídos de que a sequência dos factos que vivemos são experimentados diariamente por milhões de pessoas, quer seja uma morte, uma traição, um desgosto de amor ou qualquer outro infortúnio de carácter maior. O que acontece é que no momento do acontecimento o sentimos como avassalador, poderoso, capaz de engolir a nossa vida, elevando-a assim a um patamar superior, intransmissível, quase como se mais ninguém pudesse ter sobrevivido a algo tão nefasto. 

Ainda há pouco a esposa do sr. Manuel insistia perante mim e perante quem a quisesse escutar, que não havia vida como a dela. Que só ela sofria uma vida assim, de lida, de fado, de desgosto e de enfado. Só a ela a vida reservou uns filhos sem juízo, um marido sem trabalho, uma profissão sem graça e uma existência morna e incapaz de a fazer sorrir. Fui escutando, entrando a pouco e pouco na minha mais profunda existência. Fui-me permitindo o ingresso directo ao meu mais recôndito interior, aquele que permanece na obscuridade da minha pele, a fronteira com que determino o que é meu e o que é do mundo. Lá, já eu dissertava comigo mesma sobre o assunto. Já eu pensava sobre o facto de que todas as vidas davam uma história.

A nossa, é apenas mais um pano de fundo onde se tecem os acontecimentos, sempre mais sujeitos à interpretação do que aos próprios factos, porque é quando a descrevemos que ela se torna única. É quando a vestimos como nossa, quando a encaixamos em emoções, quando a processamos internamente e quando a relatamos de novo, com todos os contornos com que a escrevemos, que passamos a dominá-la. E é neste exacto momento que perdemos a consciência da nossa pequenez, para entrarmos directamente na construção simbólica do que julgamos ser só nosso. 

Não que eu julgue errada esta nossa forma de ser. Na prática contamos e recontamos a nossa história para que ela ganhe voz perante o esquecimento, para que nela possamos organizar e reorganizar os dados da nossa existência, e para que dela brote a resiliência, a cura e a superação. 

Quando dei por mim, já a esposa do sr. Manuel suspirava no pós relato, rendida à realidade que o universo lhe trouxe. Já ela agradecia o facto de que ainda assim havia saúde, o pretexto mais do que perfeito para que a existência se sinta como abençoada, sem direito a reclamações maiores ou exercícios fortes de reorganização. Já ela enaltecia as qualidades da família, que apesar de tudo era séria, não se metia em barulhos, não roubava nem consumia drogas. No fundo, já ela agradecia a Deus a história que lhe deu, que repetida assim, ao expoente do pormenor, ganha uma forma pessoal e vincada, que dava o livro, que marca a diferença, que permite a fraqueza, mas que enaltece a vitória.

Contar histórias, ponto por ponto, acontecimento por acontecimento, faz-nos sentir como uns felizardos, que diariamente vencemos o cansaço.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.