Início>Atualidade>Um Serial Killer nas Luzes da Ribalta
Serial Killer

Um Serial Killer nas Luzes da Ribalta

Que efeito pode ter uma sério sobre um Serial Killer nos nossos comportamentos?

Dahmer é uma série que passa actualmente numa plataforma de streaming, que já alcançou níveis de audiência muito importantes. Conta a história de um serial killer, e baseia-se em factos reais.

A série está bem conseguida, embora cruel e agressiva. Não poderia ser de outra maneira, tendo em conta que entra a fundo numa mente perturbada e complexa, mas ainda assim inteligente (continuo a achar que a perturbação mental aliada à inteligência é na generalidade das vezes um perigo para o mundo).

É uma obra de entretenimento que já deu muito que falar pela crueza de algumas imagens, mas que a mim me faz sentido pela forma real com que aborda a perturbação mental e a ausência de limites do ser humano.

Tem sido alvo de críticas pelo excesso de violência, mas curiosamente também tem sido alvo de algum culto, o que me transporta para outras personagens do mundo ficcional, que nos últimos tempos têm assumido especial relevância no imaginário das pessoas.

Basta lembrarmos Joker, ou os diversos alunos do El Profesor em La Casa de Papel, entre muitas outras, para percebermos uma certa sublimação de personagens vilãs, que a mim me transporta para algumas reflexões sobre esta forma de identificação social abrangente.

Na série espanhola, por exemplo, esta visão da victória do vilão é levada ao extremo quando a polícia Raquel Murillo se apaixona pelo Profesor e passa para o lado dos assaltantes, deixando o lado do bem pelo lado do mal. Nessa altura, e até mesmo antes disso, assistíamos já a um apoio externo dos espectadores, que defendiam a quadrilha em detrimento da equipa policial, com inúmeras manifestações de identificação aos bandidos.

Ao longo da história foi crescendo uma forte simpatia pelas personagens mais violentas, mas também mais carismáticas. Perante a morte de algumas delas pelas forças de segurança era notório o impacto colectivo dessa identificação, como se de alguma forma o mundo naquela realidade ficcional, pudesse e devesse girar ao contrário.

Neste tipo de personagens o bem e o mal perdem-se numa transformação que parece deixar a sociedade presa numa certa consideração pelo mal, parece-me. Não sei ao certo a causa ou o impacto concreto deste tipo de fenómeno, mas tendo em conta que o cinema e o mundo da sétima arte constituem desde há muito tempo um ideal de significado e fantasia, considero que merece reflexão em diversas frentes, que vão desde a génese à consequência, em conceitos como admiração, validação e identificação.

Encarando este ponto de análise, encontro-me defrontada com possibilidades diversas que me acendem o pensamento, sem que porém consiga formular qualquer teoria concreta quanto às questões que se levantam. Partilho com o caro leitor uma ou outra, para que possa junto comigo concentrar o seu pensamento no rumo que actualmente parece nortear o desnorte global da hierarquia de valores. Ou ainda, da necessidade, hoje mais aberta, da manifestação da nossa essência mais obscura. Procuraremos o bem visível e simples da boa acção subjacente ao mal, que ainda nos deixa em aberto um vislumbre de esperança nas pequenas coisas? Ou necessitaremos da auto-identificação, que poderá legitimar sentimentos sombrios, que de outra forma poderiam permanecer para sempre, perdidos no inconsciente?

Esta última poderá colocar em causa a nossa bondade e a nossa nobreza, deixando a descoberto sentires que eventualmente poderemos preferir guardar do que declarar, podendo aqui deixar em aberto a hipótese de enaltecermos cada vez mais a importância da arte, na regulação global da humanidade. No limite, poderá ainda reduzir-nos a algo que apenas se assume como belo, quando enfeitado pela sétima arte, sob as luzes de Hollywood.

Veja outras crónicas de Carla Raposo Ferreira

Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

Anúncio

Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.