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Medo

O Medo Não Nos Pode Calar

Calar é Ser Cúmplice

Nota: Numa altura em que milhares de mulheres lutam para ser livres, que se gritem todas as prisões, que se descubram todos os males, que se matem todos os medos.

Isabel conhece bem o marido. Sabe pelo som dos passos se a chegada será calma, ou se, pelo contrário, será regada pelo odor do vinho velho ou aguardente vínica, incrustado na roupa, na pele, na transpiração. Não se lembra muito bem da última vez em que ele chegou a casa sem ele, e o hábito naturalizou toda a rotina que partilham no quotidiano, quer a mesma trate o (des)funcionamento da casa, quer trate os excrementos da alma que ele deixa escapar em cada palavra que profere, usualmente imprópria para a situação, excessiva, mal cheirosa, infectada pelo álcool.

Chegou demasiado cedo para a necessidade.

Abriu a porta com força, e o hábito da desconversa depressa assolou o átrio, que se transformou num bailarico aberto ao mundo, com uma velocidade desgovernada, que se estilhaça em todas as direcções.

Isabel já não sabe muito bem o porquê de lhe ter jurado amor. Já não se lembra que olhos lhe terá feito, que palavras lhe segredou ao ouvido, que cumplicidade se terá erguido entre o seu ouvido e a boca dele, detentora de uma lábia superior, que a levou até ao altar.

Lembra-se como se fosse hoje, mas esqueceu o fundamento. Sabe apenas que agora, neste exacto momento, é arrastada pelos cabelos para uma pequena despensa, um lugar distante do quarto do filho, onde certamente será forçada a passar a noite, como em tantas outras vezes. Pela sua cabeça passam naqueles momentos, anos de história. Desde o encanto à paixão, passando para a solidez (?) do amor, atravessado pela maçada do quotidiano, pelos filhos, e pela vida, que, maldita, sem que ela soubesse o porquê, lhe colocou um estrangeiro na cama.

É com ele que se deita e é com ele que se levanta. É com ele, já moribundo pelo vício, que come à mesa, que fala de política, que vai às festas da família, e que partilha o sofá ao serão, na hora em que as famílias deveriam ser felizes. É a ele que obedece, parecendo esperar uma ordem triunfal na sua vida, que a norteie e a devolva às luzes da ribalta que se começaram a esmorecer, no dia em que se casou. 

Hoje a fúria vinha gigante. Como se não bastasse a violência, já velha e costumeira, a mesma encontrou-a desprevenida, e como tal ficou sentada no chão gelado com uma camisinha de seda macia, vestida na esperança de uma noite tranquila. Decidiu não reagir, e apenas se encolheu um pouco para se proteger do frio.

Manuel voltou para a sala. Assistiu à sua série favorita, bebericou uns goles de licor, aconchegou-se com uma manta e deu de comida ao cão, seu fiel animal de companhia. Deitou-se algum tempo depois, adormecendo num sono solto, reparador.

Não se levantou durante a noite, nem para beber água, nem para ir à casa de banho, e não se lembra de ter sonhado coisa alguma. Não possui neste momento inquietações de maior, nem profissionais nem pessoais, e pode por isso dar-se ao luxo da despreocupação.

Pela madrugada, já quase dia, acordou e lembrou-se de Isabel, trancada na despensa. Como se estaria a sentir, como teria passado a noite, pensou, curioso, mas tendendo a aguardar um pouco mais de sol, para se levantar da cama. Não lhe apetecia naquele momento escutar o lamuriar cansado da esposa, a noite tinha sido serena, restabelecedora, e não há nada mais cansativo do que a dor expressa em murmúrios, ingénuos e bucólicos, mornos, mas ensurdecedores.

Decidiu efectuar as suas rotinas antes de a ir buscar, ainda a tempo de preparar o filho para a escola, sem que ele se apercebesse de nada. Tomou o seu duche quente, olhou para as notícias da manhã, deu-se conta de que o mercado da bolsa de valores tinha estabilizado. Leu os primeiros e mails de trabalho e consultou a agenda, sempre muito preenchida, que naquele dia enaltecia diversas reuniões importantes. Vestiu o casaco e calçou-se, e mesmo antes de sair de casa, abriu o trinco da despensa onde tinha trancado a esposa.

Isabel encontrava-se encostada a uma parede, enrolada para se proteger do frio. Por cima dela tinha colocado algumas folhas de jornal, perdidas na reciclagem do papel, que a cobriram da noite desarmada. Ele referiu que ela podia sair, estava livre de novo para executar as suas tarefas, para cumprir o seu dia, para ser mãe.

Isabel levantou-se devagar, sacudiu as folhas do jornal, alisou os cabelos e a sua camisa de noite, e saiu para o corredor. Quem estivesse atento, conseguiria escutar os seus passos mansos, embalados numa canção triste, repetida ao expoente da alienação mental. Os mais desatentos viram apenas uma mulher cansada, ocupada pela manhã de outono, perdida nas suas tarefas de manter uma família feliz.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.