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Vindima

Vindima 2022 – A Festa Anual

Vindima 2022 – A Festa Anual (Um relato do Douro)

E todos os anos é assim, mal se acaba a vindima lá dizemos que “agora é que está tudo por fazer”.

E este ano, na Região Demarcada e Regulamentada mais antiga do mundo, iniciou-se de uma forma que nos dava esperança, em que houve um vingamento de cachos bem significativo na maioria das castas. E lá se continuou, pela Primavera a dentro, a tratar as vinhas, mas o ano até que nem foi dos mais difíceis, houve apenas que ter alguns cuidados com o oídio e com o brutal aumento de preços dos custos de produção, falta da mão de obra e com a falta de, dígamos, solidariedade das empresas que compram uvas, que se recusaram ou recusam a pagar o justo valor pelas uvas ao lavrador duriense (pode ser que, quando este Património inigualável a nível mundial for deixado ao abandono isso mude, mas até lá teremos que nos contentar com a mediocridade e a falta de visão. Enfim, até parece que estou a falar de política, mas não é o caso, (ou se calhar até é). Fora isso correu tudo às mil maravilhas.

Mas, o abril com as suas águas mil tardou a chegar e a bem dizer, não chegou, para o desespero de toda uma lavoura nacional, sequiosa da tão desejada contribuição de São Pedro. Ora as nossas queridas videiras continuaram a lutar, contra tudo e contra todos, neste caso os elementos e o resultado não foi bem o que os enólogos queriam que fosse, mas em bom Português, os enólogos nunca estão contentes. E ainda Bem que assim é.

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A contribuição do meu homónimo (São Pedro – que digo sempre que não deve ter lá muita consideração por mim), foi ofertar-nos o ano mais seco dos últimos 100 anos, pelo menos é o que dizem nas notícias. Ora, o ano mais seco dos últimos 100 anos, até que parece que estamos a viver uma época especial e a verdade é que estamos mesmo. E devemos cada vez mais perceber a nossa pequenez e falta de controle perante a inigualável e titânica força da natureza.

Bem, mas a reação fisiológica das videiras a estes fenómenos (stresse térmico e hídrico) foi a que sempre acontece nestes anos mais quentes, em que 2017 foi um desses exemplos, paragens na maturação fisiológica e fenólica, com uma degradação acentuada dos ácidos naturais. E o que é que isso quer dizer na realidade: o que quer dizer é que não deveremos esperar nada de muito especial dos vinhos deste ano de 2022 (até pode ser que me engane e alguém declare, para meu gaudio e deslumbre, que 2022 foi um ano “Vintage”, tal como foi o ano de 2017 no Douro).

Mas porquê é que os enólogos estão sempre à procura daquela “frescura” que não é mais que um conjunto de ácidos orgânicos que estão presentes na uva. Bem, e de uma forma simplista, é porque são esses ácidos que suportam o vinho no seu caminho evolutivo, contribuindo para uma estabilização microbiológica e para um equilíbrio que ajuda à excelência dos vinhos, caso todos os outros componentes do vinho estejam também lá em equilíbrio (mas há Regiões em que esses ácidos até são em demasia, como é normalmente o caso da Região dos Vinhos Verdes).

Posto isto, temos que tomar algumas decisões quando nos deparamos com as nossas videiras em sofrimento. Então e agora o que é que vamos fazer com as uvas? Bem, teremos que as vinificar de forma a que se consiga manter alguma dessa frescura / acidez natural. E como é que fazemos isso? Ora, teremos que vindimar o mais cedo possível para garantir que isso aconteça. E assim foi feito, não só no Douro, mas em todo o Pais. O que está a acontecer depois é que estamos a ver o resultado do ano: as uvas até que estão na vinha, mas não têm o peso que deviam devido ao stress hídrico e térmico que sofreram, sem falar nas que se perderam para o escaldão no mês de julho.

Até parece que o ano está a ser muito mau. Não parece, está mesmo a ser muito mau e custa-me imenso que esta mensagem não esteja a ser transmitida com clareza e coerência por questões meramente de imagem das Regiões. Incrível é que quando passo esta mensagem para os muitos estrangeiros que nos visitam, todos me dizem que então os preços dos vinhos deste ano deveram aumentar. A minha reação é que, infelizmente não vivemos em França e que normalmente são sempre os produtores que assumem esse prejuízo.

A juntar a todo este prognóstico e análise, junta-se o facto de estarmos à espera de uma precipitação acentuada na semana que decorre. Até parece que São Pedro está a fazer de propósito. Vai chover, ou dizem que vai chover, exatamente na altura em que menos queríamos que chovesse. Enfim, é a vida de Agricultor (a fantástica e nobre arte de empobrecer com um sorriso na cara).

Bem, temos que, como sempre, tentar fazer o nosso melhor e dentro da diversidade e variabilidade que é o Douro, tentar encontrar as melhores uvas, que provavelmente estão escondidas nas cotas mais altas e nas encostas que menos foram fustigadas pelo sol e tentar apresentar um vinho que dignifique a história desta inigualável Região. No nosso caso, temos percorrido e selecionado as nossas vinhas e castas à procura desse equilíbrio para vos poder dizer daqui a duas semanas que “está tudo por fazer”. Até para o ano que vem e esperemos que com um relato que seja bem mais positivo que este.

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Pedro Pinto
Pedro Miguel Coelho Pinto, nasce em Tomar em 1977, mas é em Rio Maior que passa a sua juventude. A sua vocação leva-o a Vila Real onde se Licencia, pela Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro, em Engenharia Agrícola, frequenta a Pós Graduação em Biotecnologia e Inovação dos Vinhos, e já com um percurso de mais de 20 anos nos vinhos, assume presentemente, a Direcção de Enologia / Produção da Quinta de São Bernardo, no Douro

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