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Controlo Social

Cegueira e Lucidez

Os Opostos do Controlo Social e da Vontade Individual – Cegueira e Lucidez

José Saramago apresenta-se como uma figura controversa do País, essencialmente pela sua raiz política, mas também pela conduta com que pautou a sua vida e a sua escrita.

Como qualquer génio divide opiniões entre os que o idolatram, devoram e pensam, e os que o desdenham, ou mesmo recusam, apesar da obra vasta e consagrada. Não me perco aqui em pormenores literários de qualidade, na minha óptica validados e reconhecidos internacionalmente, mas sim na forma como analisa o ser humano, quando a condição se torna adversa no seu habitat de funcionamento interno e externo.

Nesse campo é curiosa a forma  como abandonamos a conduta social, a regra e a educação, e nos transformamos em seres básicos, associados ao instinto de sobrevivência, onde o que impera é a satisfação do corpo e a ausência de qualquer tipo de condicionamento. Neste campo quase arrisco dizer que perdemos em comparação com os animais, que eventualmente por natureza específica (de quem teoricamente não apresenta razão), raramente alteram os princípios de funcionamento entre eles, fieis à espécie com uma constância formidável. 

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Quem já permitiu a si próprio a viagem, demorada, intensa, mas assustadoramente real, do livro Ensaio sobre a Cegueira, sabe do que falo. Conhece a forma acutilante como o autor define um cenário (só) assustador, que na página seguinte já se tornou num lugar de violência, para no próximo capítulo atingir o que de mais desumano conseguimos alcançar: a desregulação completa da regra, a única forma que conheço de evitar o caos social e a anarquia de poderes. A passagem é ténue, quase subtil, se possível vos for anexar conceitos tão leves, à desumanização. 

Efectuo por ora um paralelo à série Breaking Bad, disponível numa plataforma de streaming conhecida. O actor principal, vítima de cancro do pulmão, trava um desafio final, e ainda um outro repto, tão ou mais brutal do que este primeiro: o de deixar o mundo, mas manter a segurança financeira da família, após a sua morte , um controlo levado ao extremo, o expoente máximo do medo. A série desenrola-se num cenário alucinante de produção de metanfetaminas, onde o actor desinveste consideravelmente em si e no seu processo, tornando a doença num detalhe, que vai sofrendo de forma quase indolor, em prol de um bem familiar que para ele se afigura como inestimável e derradeiro.

Ao longo dos episódios é visível o desamor próprio, o amor à família, a necessidade mais pura de cuidar os nossos, e, mais adiante, a corrupção do essencial, quando o limite se ultrapassou e a regra já não é suficiente para manter a ordem da execução dos objectivos. É um passo dado para que se efectuem crimes que ultrapassam tudo quando poderemos ter imaginado. Mas que na aproximação do caos interno, na perda do controlo e do domínio da razão, e ainda na fixação do nosso objectivo como uma ultima prova de vida, pode ser possível transpor. 

Nesse lugar, tudo quando nos ensinaram desaparece do nosso leque essencial de procedimentos. Tudo quanto nos trava, é engolido num ápice, e todas as leis parecem desaparecer, num funcionamento interno instigado pelo limite, pela não-regra, pela ausência de padrões comportamentais que até então nos permitiram existir de forma ordenada e sensata. 

As obras que nos levam a este tipo de viagem são, por si só, de uma notoriedade imensa, uma vez que se permitem a elas próprias olhar para dentro da nossa natureza, no que de mais selvagem ela consegue encerrar. Porque deixam cair o preconceito da perfeição e ainda assim conseguem olhar para dentro do nosso próprio Eu, um lugar inespecífico, corrompível, imoral, regulado pela sociedade de uma forma impecável, mas alterado pelo próprio interior, quando a raiz do medo deixa a descoberto o egoísmo extremo. 

“(…)  Então, para simplificar, aconteceu tudo ao mesmo tempo, a mulher do médico anunciou em altas vozes que estavam livres, o telhado da ala esquerda veio-se abaixo  com medonho estrondo, esparrinhando labaredas por todos os lados, os cegos precipitaram-se para a cerca gritando, alguns não conseguiam, ficaram lá dentro, esmagados contra as paredes, outros foram pisados até se transformares numa massa informe e sanguinolenta, o fogo que de repente alastrou fará de tudo isto cinzas. O portão está aberto de par em par, os loucos saem (…)

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

Negar esta essência é um trajecto comum. Transforma-la em obras de arte, é a estratégia poética que encontramos de a encarar, de uma forma romantizada, mais ortodoxa, protegida pelo ícone da fantasia. Não concebo o mundo sem ela, seríamos uma espécie de desconhecidos de nós próprios, numa escala ainda maior.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.