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Agosto

Estio em Agosto

O Agosto constitui, na minha perspectiva, uma altura de reflexão global muito mais séria do que os balanços do final do ano.

O mês de Agosto constitui, na minha perspectiva, uma altura de reflexão global muito mais séria do que os balanços do final do ano. Os balanços do final do ano surgem fartos em festa e em pessoas, comemoração e religião, e tudo quando dali possa rebentar vem contaminado e corrompido pelas massas do consumismo, da multidão e da censura.

Nunca tenho muita confiança nestas resoluções, soam-me sempre vãs, inúteis, pouco produtivas e excessivamente repetitivas.

As promessas vêm cheias de lugares comuns.

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Deixar de fumar, encontrar um sentido para a vida, melhorar as relações familiares, mudar de profissão, tudo esperanças fundamentadas em princípios desabitados de vida, de análise, de introspecção, pouco prenhes de vontade, suor e consistência.

Meia dúzia dos dias gelados de Janeiro chegam para derrubar todas estas intenções, que se esfumaçam passageiras empurradas pelas chuvadas fortes do Inverno.

Agosto é diferente.

Em Agosto fecha a justiça e as escolas, e as crianças passam tempo sem fazer nada. Descobrem que há espaço, que há imaginação, que há realidade muito além da obrigação e das actividades extra-curriculares.

Prepara-se o novo ano lectivo, e há ciclos que mudam de lugar, como se as casas pudessem saltitar de um lado para o outro, a deixar para trás o ano velho.

Em Agosto o país vai para férias e ruma em família até aos destinos balneares da moda.

Convive com a raiz interna de cada elemento, cheira o odor dos vícios e dos talentos, escuta as sabedorias e as ignorâncias.

Pasma-se com as competências e zanga-se com as impertinências, finge amores e descobre desamores, espreita, se tiver coragem para isso, para os espectros da alma e encontra, se quiser, propósitos diversos para dominar.

Se regressar à cidade antes do fim do Estio ainda consegue encontrar tempo para circular na cidade sem pressa, descobrir o redor  do sítio onde mora, perceber que caminho percorre todos os dias, que plantas autóctones medram nas bermas da estrada, o que existe para além do óbvio e, quem sabe, de quantas estrelas se compõe o céu, pelo menos o seu.

Lá para Setembro é quando tudo recomeça. Depois dos banhos, das convivências, escolhidas ou forçadas, dos encontros com o ócio, dos confrontos com os repastos que desafiam o palato.

Às vezes, inconvenientemente, tenho quase a certeza do que irá acontecer nos Setembros das pessoas.

Cresce-me uma convicção mordaz que me carcome as entranhas e me coloca numa espécie de patamar superior, como se eu soubesse mais do que elas, como se na minha cabeça fosse claro, o que na delas não é. Permito-me a todo o processo na mais profunda discrição, claro.

Distraio-me com uns passeios a pé pela cidade, vou observando as flores coloridas e os animais vadios, e dedico pouca atenção às famílias que passeiam pelos parques,  permitindo-me apenas a meia dúzia de palavras lacónicas, em caso de obrigação. Sinto sempre que não tenho o direito de saber o que não me pertence, até porque, Setembro não tarda. E no arranque do Outono, quando as colheitas retomarem e o pó se levantar da lavra, os primeiros pingos da chuva irão disfarçar as lágrimas dos que escolhem a cadência da rotina. Ao mesmo tempo que abençoarão a busca pela harmonia, dos que se cansaram do verão. 

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.

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