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Os novos 60

Os 20 são os novos 60

Eu sei que só pode ser um sinal de velhice quando me começo a preocupar com a higienização dos espaços onde faço o sexo.

Viva leitor, como tem passado? Aposto que a ansiar pelas férias para poder pôr o rabinho de molho em praias como a Figueira, Peniche e Algarve, ou na Comporta se tiver 3 nomes próprios. 

Também eu devia estar a descansar mas a justiça social não tira férias e eu também não. E como é meu apanágio, venho fazer tudo menos justiça social. Até porque eu não tenho muitos pelos e acho que é fisicamente impossível lutar pela justiça social sem deixar crescer pelos nas axilas e nas pernas. É um bocado como ir ao barbeiro, podes ir sem ter muito cabelo mas parece que foste só para fazer conversa. 

Noutra nota, o que trago hoje para deleite do leitor é um misto entre um queixume e uma presunção, vou deixar ao leitor decidir qual é no final. Venho falar de estar a ficar velho, tanto eu, individualmente, como a minha geração, coletivamente. 

Hoje em dia, enquanto os miúdos na casa dos 20 andam a afogar as lágrimas em copos de vinho tinto cansado porque morrem tartarugas engasgadas com palhinhas de plástico, os adultos vão à Comic-Con vestidos de Shrek. 

E eu sinto isto na pele. Sinto esta responsabilidade, esta consciência, esta velhice precoce. Eu sei que só pode ser um sinal de velhice quando me começo a preocupar com a higienização dos espaços onde faço o sexo.  

“ Oh Joana, não te encostes ao carro que eu já não o lavo desde que vieram as poeiras de África” – digo eu, enquanto desinfeto as mãos sem nunca esquecer de lavar entre os dedos. 

Conheço uma rapariga na noite e o critério mais importante já não é a beleza, o mais importante é saber em quantas maçanetas tocou durante a noite. 

Viver assim está-se a tornar insuportável. Chega ao ponto de afetar a relação que eu tenho com os meus amigos. Enquanto antigamente gozava com amigos que não conseguiam dar penaltis de cerveja, agora gozo com amigos que não fazem um refogado antes do arroz. 

E como qualquer bom velho que se preze, também me tornei muito mais exigente com as pessoas à minha volta, especialmente com os meus amigos. Já não me torno amigo de qualquer pessoa. Há uns anos queria um amigo que fosse lixado para a porrada, agora quero um amigo que não trave em cima das curvas. 

Outrora sonhava com grandes aventuras e viagens para países exóticos, conhecer novas culturas e experimentar gastronomias únicas. Agora sonho com um bom plano de reforma e em conseguir comprar casa num sítio com bons acessos. Acho que já deu para perceber. 

O mesmo acontece com a minha geração. Somos demasiado sérios, demasiado conscientes. Vamos ao café e falamos sobre política internacional e leis empresariais ecologicamente sustentáveis em vez de falarmos das mamas novas da Fanny. Estamos sempre em cima das notícias e dos acontecimentos. Aos 8 anos acordávamos às 7h para ver o ZigZag, e aos 18 anos acordamos às 7h para ver o primeiro noticiário da Sic Notícias. Ontem descobri que o governo de Itália caiu há já uma semana. UMA SEMANA! E eu só sei agora, isto faz de mim o quê? Um infoexcluído? Ou pior… uma pessoa desinteressada? Só não sinto arrepios na espinha dorsal porque aparentemente não tenho uma. 

Apesar de tudo, se abrirmos o Instagram vemos a Kylie Jenner, uma boneca de silicone com algumas aplicações cirúrgicas de carne humana, seguida por 361 milhões de pessoas, enquanto que a Greta Thunberg, uma das mais importantes ativistas da atualidade, com 14 milhões de seguidores. Afinal de contas, ainda existe esperança para a minha geração.

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Bruno Rolo
O meu nome é Bruno Rolo, sou licenciado em Marketing Turístico e a minha principal ocupação é trabalhar como responsável de Marketing e Comunicação. Gosto de comédia e tento sempre incorporá-la na minha escrita, ainda que na maioria das vezes fique pelo tentar.