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Medicina a mais?

Actos médicos a mais, Senso Clínico a menos, Medicina nas horas da amargura!

Depois de em Março passado, o British Medical Journal – BMJ, publicar um artigo de opinião, intitulado “The illusion of evidence based medicine“, esta mesma reputada, e mais antiga revista na área da medicina, publica esta semana um outro artigo com o título “A system reset for the campaign against too much medicine“, que traduzimos para “Uma reinicialização do sistema para a campanha contra medicina a mais”, onde reflecte sobre o actual fardo a ques estão sujeitos os actuais sistemas de saúde, considerando que excesso de diagnóstico e de tratamento podem agravar a situação ainda mais.

É exactamente a frase “O actual fardo a ques estão sujeitos os actuais sistemas de saúde, é sem dúvida agravado pelo excesso de diagnóstico e de tratamento” aquela que inicia a Escolha do Editor, do número mais recente do BMJ.

Se o leitor acha que este tema é novo, está enganado, em Abril de 2002 esta reputada revista, publicou um número sobre o tema do “excesso de cuidados médicos”, e entre os quais podemos ler artigos como “é necessário agir para deter a “propaganda das doenças”, (tradução livre de Action is needed to stop “disease mongering”), e entre outros um sobre a medicalização do parto pelos obstetras (ver aqui).

Mas para além deste número o BMJ mais vezes abordou esta temática, que está longe de ser pacífica.

Nesse mesmo número, de Abril de 2002, o editorial com o título “Medicina a mais?“, assinado por Ray Moynihan, journalista e Richard Smith, editor referia:

A maioria dos médicos acredita que a medicina é uma força do bem. Por que outra razão se teriam formado? No entanto, embora todos conheçam a possibilidade da medicina prejudicar individualmente pacientes e populações inteiras, presumivelmente poucos concordariam com Ivan Illich que “a instituição médica se tornou uma grande ameaça à saúde”. Muitos poderiam, no entanto, aceitar o conceito do economista da saúde Alain Enthoven em que aumentar os procedimentos médicos em determinado momento se pode tornar contraproducente e produzirá mais mal do que bem. Então, onde está esse ponto, e será que já o alcançamos?

Ray Moynihan, Jornalista e Richard Smith. Editor

E posteriomente em 2015, o BMJ lançou a campanha Medicina a mais!, a partir de um editorial: Too much medicine: the challenge of finding common ground (Medicina a mais: um desafio para encontrar uma base comum) e onde podemos ler que com muita frequência, os pacientes são feridos por cuidados médicos desnecessários ou excessivos, e que medicamentos a mais alimentam o desperdício e o aumento dos custos de saúde; pretendendo com a campanha Too Much Medicine do BMJ (www.bmj.com/too-much-medicine) e esta número temático especial lançar mais luz sobre o problema.

Claro, conforme referem os editores, não é fácil saber quanto, ou que é medicina a mais, mas podemos ler nesse artigo afirmações que irão com toda a certeza deixar o leitor inquieto talvez até apreensivo, como esta:

Nos países desenvolvidos, entretanto, a mamografia veio para resumir o problema do excesso de remédios. Como Barratt afirma, ela transforma “mulheres bem-sucedidas em pacientes que são expostas a todos os riscos das terapias contra o cancro”

Helen Macdonald e Elizabeth Loder

Esta afirmação será objecto de outro artigo prometido para bem próximo, mas fica desde já avisado que vários países desenvolvidos, não tem uma boa opinião, por diversas razões sobre o procedimento das mamografias com método de diagnóstico precoce do cancro da mama. Se no entanto o leitor quiser abrir o apetite pode começar por ler este artigo.

O que queremos deixar claro é que o paradigma actual dos cuidados médicos está esgotado, a quantidade de horas (de euros e de recursos de várias espécies) que se gastam, em exames diagnósticos muitas vezes inconclusivos merece ser repensado.

O foco, tem de ser centrado cada vez mais virado para o doente, e não para uma escalada do uso cada vez mais protocolado de procedimentos médicos, baseados nos exames ditos objectivos (outra falácia, para mais um artigo), que não param de limitar a intervenção do médico, e passar a autoridade para os donos da opinião formada, as famosas guidelines, ou melhor pelos “donos” das ditas.

Obviamente, que a facilidade de acesso aos exames analíticos, e imagiológicos são um avanço que não pode ser desperdiçado, mas neste momento o investimento na formação do sentido clínico dos médicos, deu origem a uma formação estereotipada, fundamentada na ilusão da EBM, ou medicina baseada nas provas, erradamente traduzido por medicina baseada na evidência, num claro neologismo snobe.

Mas voltemos ao artigo de março de 2002, a ilusão da medicina baseada nas provas, em que o autor escalpeliza os perigos da subjugação da ciência ao poder dos grupos financeiros, e o domínio de várias estruturas desde as organizações reguladoras e fiscalizadoras supostamente independentes, bem com da própria academia, e se o leitor quiser poderá ver a análise realizada pelo Prof. Campbell sobre este assunto no seu próprio canal de Youtube.

A eutanásia, e a medicalização dos partos, são uns excelentes exemplos para refletir sobre este tema, lato sensu da iatrogenia, a que voltaremos.

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