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Certo Ou Errado

Certo ou Errado

O Antídoto

Odete tem muitos ciúmes de Rosa. Rosa, discreta na voz e opulenta na presença, tenta passar despercebida, mas a rectidão das palavras, a franqueza dos actos e a eficácia dos pensamentos, não permitem. Vê-se a léguas de distância, enquanto caminha a passo certo e calmo, sem grandes acelerações ou dúvidas que a impeçam de prosseguir.

Sempre a senti incómoda, ou não fora este mundo um lugar onde o certo desinquieta o errado, e onde a inveja arrebata corações confusos, em vez de os fazer aprender a comportarem-se.

Hoje o tema foi um assunto onde Odete nada tinha a ver, mas que de todo, queria saber. A ira acomodou-se no seu metro e cinquenta de pessoa, levou-se das maiores razões de injustiça, ressuscitou memórias alojadas de informações vedadas, e gritou aos sete ventos uma suposta discriminação, como se tudo o que se dissesse, fosse de ordem pública, e tudo quanto se calasse, fossem calúnias direccionadas à sua própria pessoas.

A dúvida, todos sabemos, dá lugar à mais feroz zanga, protagonizada por uma mulher. Nenhuma pode com ela ao colo muito tempo, pesa, inquieta, desassossega, desencaminha o espírito para a malvadez da existência. Há algumas que moderam a dose da descarga, refreiam o acto, calculam o timbre, arrumam a emoção, mas Odete não se vai de modas, quer saber, e mata quem se atravessar no caminho. Quando a encontrei, juro, deitava fumo pelas orelhas. Tentei que se sentasse e respirasse fundo, regulasse a emoção, exterioriza-se de forma mais ou menos contida a sua zanga, soltasse, com parcimónia e longe do alvo, o mórbido veneno. Estou certa de que resultou, abandonou-me bem mais sossegada, mas desde esse momento que me encontrava enfastiada, com umas dores no estômago, uma acidez no esófago, uma revolta intestinal.

As mulheres injustiçadas, mesmo que em processo de imaginação, são perigosas. Acartam uma força bruta suficiente para desordenar o mundo, desencaminhar o homem, vingar o ego, e quebrar de vez quem se julgue em vigor, capaz de estancar a enxurrada. Num ápice esse pobre alguém afoga-se, inunda o corpo com a peste e respira a custo, como um peixe fora de água. Como paga, trouxe-me há pouco uma caixinha de dióspiros, uma delicia comidos com canela. De uma textura inconfundível, estranha, pastosa, difícil de definir. Comi dois, e melhorei significativamente a minha indisposição.

Há energias que danificam, mulheres que quando respiram horas depois, parecem outras mulheres, e antídotos realmente milagrosos.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.