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A caça às Influencers

O perigo que as Influencers apresentam!

Com que então o mundo está a descobrir agora que se calhar a maneira como as influencers pintam a vida delas é capaz de não ser muito saudável para os plebeus que as seguem? 

Sinto que se me derem um par de calças cor salmão passo a ser o Cláudio Ramos das crónicas. Isto porque, à semelhança da semana passada, venho aqui discutir uma polémica. Até começaria a dizer qual teria sido a polémica desta semana, mas creio que esta expressão já está ultrapassada. Já não existem polémicas da semana. Existem polémicas do dia. E brevemente, existirão polémicas da manhã, da tarde e da noite. E mais futuramente, existirão as polémicas das cinco da tarde, as polémicas das onze da manhã, e, evidentemente, as polémicas de meia-noite. 

Posto isto, a polémica de há uns dias foi relativa a uma influencer que publicou uma foto pós-parto em que se mostra numa figura quase divinal. Desde o guarda roupa escolhido a dedo, à maquilhagem aplicada no ponto, passando pelo intenso jogo de luzes e chegando à complexa pós-produção. Basicamente, esta influencer mostrava-se num ar angelical minutos depois de ter participado no deselegante ato que é o de dar à luz um filho.
Isto gerou a revolta da população que defendia que a banalização desta estética é danosa para outras mulheres que esperam conseguir atingir aquele nível de beleza e glamour durante o nascimento dos seus filhos e, evidentemente, nunca irão conseguir parecer tão bem como esta influencer. Até aqui, tudo normal, são seres humanos a agir como seres humanos. O engraçado veio depois, quando se gerou uma polémica sobre a polémica. 

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Acontece que pessoas que não ficaram ofendidas com a publicação em primeiro lugar ficaram depois ofendidas com a ofensa das pessoas que se ofenderam em primeira instância. Confuso? Seja bem vindo à Internet

Esta segunda vaga de polémica afirmava que a fotografia não passava precisamente disso, uma fotografia. Com toda a inocência e inocuidade características de uma simples fotografia. E que apenas se deixava afetar pelos rigorosos padrões de beleza estabelecidos nela quem era burro e não percebia que aquilo era tudo falso. 

Estes são os dois argumentos de cada um dos lados das violentas trincheiras que são o Twitter. E aqui eu tenho de confessar, que acho que a Internet estava “correta” com a primeira polémica. Coloco correta entre aspas porque na internet nada chega a ser unicamente correto. 

Mas acredito verdadeiramente que a intenção dos internautas nas primeiras horas era boa. Acredito que quisessem finalmente desmascarar o circo de falsidade, comparações venenosas e futilidade que é a vida das influencers. E é precisamente sobre isso que eu quero falar: o conteúdo das influencers é benigno ou maligno? Eu acredito fazer mais mal do que bem, eu e uns quantos documentários e artigos científicos que comprovam isto mas que não vou estar a trazer para a conversa porque não me lembro onde os vi e não tenho como os referenciar. Chamem-lhe preguiça e incompetência jornalística, que eu concordo totalmente e chamo-lhe isso também. 

Não podemos continuar a achar que os únicos perigos da Internet são o cyberbullying e as burlas do OLX. Os contornos do digital evoluíram para uma situação muito mais complexa. Um destes contornos é resultado da curadoria que todos nós fazemos da nossa imagem digital. Pensem comigo, só partilhamos os acontecimentos interessantes da nossa vida, as conquistas, as viagens, as festas, as superações, as compras, as vitórias. E imortalizamos estes momentos através de vídeos e fotografias. Vídeos esses e fotografias essas que, na sua forma natural, já não chegam para cumprir com a exigência estética do digital. E então fazemos o quê? Aplicamos filtros que melhoram a luminosidade da fotografia, reduzimos as borbulhas e as imperfeições da nossa cara e aumentamos o contraste para as cores parecerem mais vivas. E como se isto não fosse já suficiente, ainda pensamos na descrição ideal, colocamos a localização na publicação para não haver dúvidas de onde foi, e ainda acrescentamos uma música por cima para criar o ambiente perfeito.

Toda a gente faz isto. Eu inclusive. Isto é perigoso para o cérebro humano porque sempre que abrirmos as nossas redes, coisa que fazemos centenas de vezes por dia, vamos ser violentamente confrontados com centenas de vidas melhores que a nossa. Isto cria uma revolta interior a nível inconsciente, cria rotinas de comparação diária tóxicas, cria insatisfação, cria inveja. Que resulta numa necessidade inexplicável de espelhar o que estas pessoas com vidas incríveis fazem. Mas não o podemos fazer para nós, porque depois ninguém vai saber que nós somos como eles, então partilhamos e ficamos à espera da aprovação imediata em forma de likes e comentários. E enquanto esses likes existirem vamos sobrevivendo, mas quando eles deixarem de existir começa a entrar a revolta, o ódio pessoal, a autoculpabilização, e entramos num redemoinho infinito de infelicidade porque nunca vamos conseguir ter a vida que os outros têm. Se eu retiro isto tudo de uma foto de uma influencer? Sim. Se estarei a exagerar? Muito provavelmente.

Mas uma coisa posso garantir, acabo de escrever isto com um ar mais cansado do que a senhora que deu à luz.

Veja outras crónicas de Bruno Rolo.

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Bruno Rolo
O meu nome é Bruno Rolo, sou licenciado em Marketing Turístico e a minha principal ocupação é trabalhar como responsável de Marketing e Comunicação. Gosto de comédia e tento sempre incorporá-la na minha escrita, ainda que na maioria das vezes fique pelo tentar.

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