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Luto

Estar de Luto

O luto, numa abordagem integrativa.

Recentemente a psicologia e outras áreas de intervenção na mente humana, debruçam-se sobre temas que apesar de serem de sempre, nem sempre obtiveram a atenção que efectivamente merecem. Com a investigação permanente nestes âmbitos, sabemos hoje que ao longo da vida sofremos um conjunto de perdas significativo, por vezes sem que a consciência das mesmas e suas consequências, se faça sentir. Poderemos falar de perdas por morte, eventualmente as mais marcantes, perdas peri-natais, perdas por divórcio, perdas de expectativas de vida, lutos antecipados, todas elas com frequente carácter importante, que podem suscitar dificuldades de gestão de stress, tristeza extrema, solidão, depressão, entre outros sinais de carácter diverso.

Muitas vezes, não tão raras como isso, o ser humano, e por necessidade de continuidade, acaba por inibir com mecanismos de defesa estas mesmas manifestações. Mune-se de um conjunto significativo de estratégias que o ajudam a permanecer activo, e só mais tarde, por vezes anos depois, se inicia um conjunto de sintomatologia somática, de irritabilidade ou angústia, que levam à procura de ajuda específica, altura em que o diagnóstico nos transporta para uma realidade que nem sequer era consciente: há um processo de luto inibido, a necessitar de cuidado, pois o decurso normal da vida dessa pessoa já se encontra comprometido.

Neste seguimento, e por forma a proceder à identificação dos sintomas e posterior reorganização de personalidade, é importante perceber a dimensão da perda e o seu significado, os sinais de alarme e de defesa extrema, a fim de se poder perceber e reparar reacções de luto considerado normal, patológico, inibido ou prolongado.

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Numa primeira análise e linha de intervenção, feita normalmente por quem está mais perto, é preciso tentar perceber a dimensão da perda e a extensão com que atingiu o enlutado; qual a sua capacidade de reorganização da vida diária, a resposta efectiva perante o problema, as acomodações já efectuadas. Há uma tendência forte a utilizar o senso comum como orientador de análise, um erro que pode comprometer a avaliação, pois nos casos de inibição da sintomatologia os sinais são pouco claros, e a aparente normalidade pode ser muito enganadora, até para alguns profissionais de saúde que tomem contacto directo com a situação. Contrariamente ao que muitas pessoas consideram, raramente é adaptativo um percurso excessivamente tranquilo após a morte de alguém, ou outra perda importante. Bastará uma auto análise para compreendermos que o sofrimento perante uma viuvez (tantas vezes desvalorizada na terceira idade, pelo decurso normal da vida e da morte, mas ainda assim tão avassaladora), uma perda de uma mãe ou, mais tremendo ainda, um luto por um filho, perdas estas que colocam o ser humano num patamar da existência a necessitar de profunda reorganização, com uma necessidade de redimensão pessoal muito significativa, a um nível inter, intra e existencial, que jamais poderá ser feita de forma simples e calma. Tal como não será calma a adaptação a uma doença prolongada de uma pessoa próxima, onde o contacto com a dor física e mental, do próprio e do doente, constitui uma constante de sofrimento, tantas vezes inibido pelo cuidador pela necessidade da manutenção do zelo, sem espaço para choros ou outras manifestações que perturbem a manutenção básica da sobrevivência.

A expressão do sofrimento nestas perdas faz parte de todo um processo, e necessita de ser permitida, muito embora nem sempre seja bem acolhida pela sociedade. Não é fácil ver sofrer, há uma tendência generalizada a tentar salvar da tristeza. É muito mais fácil “retirar” a pessoa da dor, e consequentemente sair com ela, do que permanecer no processo de quem internamente se encontra num processamento de luto, uma tolerância urgente mas que nem sempre se consegue, dado ser uma direcção totalmente contrária à nossa natureza.

Uma educação mais consciente de todos estes mecanismos, é por conseguinte de suma importância para a evolução da sociedade. Tal como é importante compreender toda a dimensão que tantos tipos de luto podem ter na funcionalidade de cada ser humano. Porque as perdas fazem parte da vida, como refiro logo no início do texto, mas repará-las, conhecer as consequências das mesmas no nosso funcionamento, e adequarmos o nosso corpo às exigências a que nos obrigou, fazem parte de um conjunto de recursos que poderão aumentar significativamente a nossa capacidade de restruturação.

Há muitos sinais de alerta aos quais poderão estar atentos, como referencial que poderá ser útil na sinalização de casos mais complexos. Os mais óbvios, como uma tristeza extrema e incapacitante, durante longos períodos após a perda (seis ou mais meses), bem como outras alterações de realce na vida da pessoa, como total perda de motivação, capacidade de trabalho, entre outras. Porém, e devido à nossa capacidade adaptativa e defensiva, é também muito importante estar atento ao que poderemos chamar de não sinais, como uma aparente ausência de sintomatologia, quando o esperado seria alguma manifestação e expressão emocional, perante a dimensão do que se viveu.

 Sendo assim e através de uma continuada melhoria da literacia emocional, é importante que cada um procure uma capacidade de análise pessoal e social muito consciente, para que sempre que haja dúvidas, ou que manifestamente se afigure necessário, se procurar a ajuda de um profissional competente, que deverá ser detentor de uma formação específica na área, pois só assim poderá conhecer a especificidade tão importante destes processos.

Este profissional, em sintonia com a pessoa, recursos e dificuldades, definirá como objectivo identificar os mecanismos de defesa e perceber a sua função, facilitar a exteriorização emocional e a convergência de incongruências internas, e trabalhar toda a dinâmica de funcionamento, sempre com o intuito de uma progressiva integração da perda, e a uma orientação positiva do seguimento da vida.

Viver determinadas tristezas faz parte do percurso da vida e do nosso crescimento, não há como mudar esta nossa natureza. Conseguir senti-las é um caminho muitas vezes negado pelo próprio e pelo meio envolvente, que parece adoptar a felicidade como a única emoção válida, mostrando esquecer que ela jamais poderá assumir um estado permanente. A tristeza, a zanga, a culpa, fazem parte da paleta de cores que mora connosco, e só olhando-as de frente, dissecando-as e analisando os pressupostos, nos poderemos reorganizar e avançar, de forma saudável e adaptativa, agregando em nós o que se perdeu, em memória, respeitando todas as consequências que daí possam advir.

A perda tem impacto na vida. Senti-lo, validá-lo e reconhecê-lo, é parte significativa do caminho da integração.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.