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Ignorância Versus Felicidade

Ignorância VS Felicidade

Ignorância Versus Felicidade

Diz-se por aí que a ignorância é uma bênção e que a consciência e/ou conhecimento trás infelicidade, se isto for realmente verdade, está explicada a felicidade constante de muita gente. 

Intriga-me que possíveis formas reais pode tomar esta expressão. Isto é, para qualquer expressão idiomática, ditado ou provérbio existente na nossa rica cultura deverá ter precedido um acontecimento que deu à luz uma moral da história. Moral esta que, por sua vez, foi concentrada numa curta frase. Permita-me ilustrar esta ideia com um rápido exemplo. 

Por volta do ano 900, numa pequena vila do Ribatejo, vivia um jovem de seu nome Henrique. O Henrique era padeiro e servia todos os habitantes da vila. Os seus pães eram os melhores das redondezas, e não apenas por serem os únicos. Mesmo habitantes que costumavam viajar e acabavam por provar pães de outros padeiros continuavam a defender que os pães do Henrique eram os melhores. Chegavam até a vir pessoas de fora da vila só para provar esta iguaria. Não havia dúvida de que o Henrique era incrível naquilo que fazia. Várias primaveras se passaram sobre os ombros do jovem Henrique. Tornara-se um homem adulto e, consequentemente, como mandava o preceito da época, um pai. O filho do Henrique, começara desde tenra idade a brincar com pão e a acompanhar o pai na produção do mesmo. 

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Inevitavelmente, chegou a altura do Henrique passar o legado ao filho e ser este a fazer os pães para a cidade. Sim, já não é uma vila, agora é uma cidade, desenvolvimento urbano, embrulha Marquês de Pombal

O filho do Henrique assumiu o controlo da padaria e, para espanto dos habitantes, os pães dele ainda eram melhores que os do pai. Nesse dia, algum habitante devia ter ido à pesca de manhã e, quando provou os pães de um filho que sabiam tão bem quanto os do pai, eternizou a icónica expressão: filho de peixe sabe nadar. 

Foi exatamente assim que aconteceu, com total e completa precisão científica. Pelo menos na minha cabeça, foi. 

O que eu quis dizer com este exemplo altamente rebuscado e desnecessário foi que, todas as expressões devem ter nascido de uma situação real. Logo, seguindo esta premissa, questiono-me sobre qual terá sido a situação que deu origem à expressão “a ignorância é uma bênção”. Não tenho uma resposta para isto, mas tenho um exemplo atual que penso poder corroborar esta minha teoria.
A indústria alimentar tem sido uma das que sofreu mais mutações. Não propriamente no seu modelo de vendas ou nos métodos de produção, esses continuam igualmente desumanos. Mas na maneira como os produtos alimentares são percecionados pelo público. Alimentos que há 20 anos eram essenciais para o bom funcionamento do nosso organismo, hoje são clandestinos a uma alimentação saudável. O leite, o pão, a carne, são todos alimentos que hoje em dia carregam uma conotação muito negativa. E porque é que isto acontece? Porque existe uma democratização e uma disseminação absurda de informação a um ritmo quase sufocante. 

Se queremos ser saudáveis já não basta guiarmo-nos pela velha, antiquada e decrépita roda dos alimentos. Essa informação é datada, logo, é nos pedido que estejamos constantemente em atualização dos nossos conhecimentos. Ao fazermos isto, vamos tropeçar inevitavelmente em alguns dos horrores cometidos pela indústria alimentar que justificam porque é que certos alimentos devem ser evitados e outros devem ser priorizados. 

A este ponto, deixamos de ser ignorantes no que toca à comida que comemos, o que aumenta a nossa exigência e limita a nossa satisfação. Antes de nos atualizarmos com estas novas informações, qualquer iogurte que comêssemos satisfazia as nossas necessidades, que eram simplesmente deixar de ter fome. Contudo, agora, depois de adquirirmos este conhecimento, vão ser poucos os iogurtes que nos vão satisfazer porque a necessidade já não é só matar a fome, é fazê-lo mas de forma sustentável. Então temos de ter atenção aos ingredientes que leva, onde é produzido e embalado, se estas fábricas cumprem com todas as normas ambientais e laborais, se tem glúten, se tem aditivos, se tem corantes, se tem conservantes. É preciso um doutoramento para conseguir escolher de forma consciente e sustentável um simples iogurte.

Aqui, entra a infelicidade. Quando não conseguimos ter em conta todas estas variáveis e comemos qualquer coisa, lembramo-nos imediatamente das vaquinhas que estão a ser torturadas para nos darem o leite dos iogurtes, das fábricas sujas e imundas, dos executivos que tentam ao máximo reduzir os custos de produção optando por ingredientes de qualidade inferior, aumentando o uso de químicos e tratamentos, e pagando salários mais desnutridos que as próprias pessoas que lá trabalham. E o resultado disto é o quê? Um iogurte com pedaços de pêssego que tem tudo menos pêssego lá dentro.

Se não soubéssemos de nada disto, a nossa vida seguia normalmente. Quando sabemos, a nossa vida segue normalmente, mas um bocado mais triste. Agora multipliquem isto por tudo aquilo que existe e é passível de ser conhecido.

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Bruno Rolo
O meu nome é Bruno Rolo, sou licenciado em Marketing Turístico e a minha principal ocupação é trabalhar como responsável de Marketing e Comunicação. Gosto de comédia e tento sempre incorporá-la na minha escrita, ainda que na maioria das vezes fique pelo tentar.