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Animais de companhia

Animais de Companhia

Há anos que o Homem domestica animais. Nem sempre como o melhor dos propósitos, e nem sempre com a clara consciência de que são um ser vivo, que necessita de cuidados e afectos. Hoje, mais do que nunca, assiste-se a uma humanização no seu trato, sendo que a própria lei já o protege de algumas situações infelizes, porém, ainda estamos longe de encontrar um ideal que nos coloque no patamar de evolução sintónico o suficiente para os proteger de todos males, tal como merecem. E merecem muito e por tudo.

Merecem antes e acima de qualquer outro motivo, porque são seres vivos, e como tal são detentores de direitos. Mas merecem também porque podem representar significados muito importantes em inúmeras vidas, que neles constroem a satisfação das suas necessidades relacionais, quando assim faz sentido, ou quando ninguém mais as consegue ou pode preencher.

Ao longo dos meus anos de trabalho já me deparei com diversas vidas que superaram momentos difíceis, porque eles existiram. Já encontrei crianças com atrasos de desenvolvimento ou dificuldades de interacção emocional, que com eles evoluíram muito, pela capacidade inata que têm de não nos falhar nem nos desiludir.  Também já encontrei animais que pereceram devagarinho após a morte dos seus donos, pela tristeza, pela solidão. Já os vi agitados perante a aflição dos donos, num entendimento muito próximo do sexto sentido, provando, por isso, que também todos os outros poderão ser reais.

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Após o tempo de pandemia e a solidão que se instalou em inúmeras casas, a função da companhia dos animais elevou-se ainda mais. Durante meses, muitas pessoas centraram as suas interacções nos seus animais de quatro patas, que constituíram uma fonte de afecto e proximidade, que nos foi vedada pelos limites sanitários impostos pelas autoridades de saúde. Num momento de fragilidade humana, foram eles que em muitos lares assumiram a função de um ser vivo presente incondicionalmente, independentemente da quarentena ou outras medidas de protecção. Talvez possamos não ter pensado muito sobre isso, mas na realidade a sua função na manutenção da saúde mental das pessoas foi muito elevada, pela capacidade de serem responsivos e atentos.

Não posso deixar de apelar para a responsabilização das pessoas que pensem adoptar um animal. Percebendo a elevada importância que podem ter na vida das pessoas, é muito injusto que se tome esse encargo, se não existir motivação para tal. Ter um animal implica responsabilidade, tempo, dedicação, foco. Qualquer relação implica reciprocidade, zelo, cuidado, para ser satisfatória. De outra forma apenas cumprirá um qualquer capricho emocional passageiro. Se sentir que é esse o seu caso, aceite, a vida é feita de escolhas e opções. Será uma decisão muito mais acertada do que assumir a responsabilidade por um animal que não vai ser feliz.

Para terminar, deixo dois testemunhos anónimos que nos descrevem na perfeição o que atrás falei.

Os cães 

O meus cães têem sido tudo. Numa sequência de momentos duramente destruturantes, foram (e continuam a ser) a constância de ternura, de afeto, de confiança. A certeza da aceitação incondicional. A sua fragilidade e pouco tempo de vida, nunca deixam de me causar uma enorme tristeza e angústia. Imaginar-me sem eles é desolador. Concebo com muita dificuldade uma vida sem eles sempre ao meu lado. Assusta-me demasiado. A visão de poderem sofrer, perturba-me profundamente. Ser a única pessoa responsável por eles e pelo seu bem estar, muitas vezes torna-se muito limitador perante outras escolhas, caminhos, dinâmicas. Mas se o faria tudo outra vez? Sem duvida. O seu amor incondicional é libertador. São perfeitos. Não falham, fazem-me sempre sentir melhor. São sempre a opção certa, certeira no retorno e sem desilusões. 

M.

Os gatos

A minha gata reage ao que eu sinto como ninguém. Contempla as minhas tristezas, atenta, parada , e corre pela casa, animada, quando chego. Já me viu activada por preocupações, e nesses momentos mia à minha volta, em círculo, como se quisesse proteger-me e conter o que sinto. Não lhe atribuo nenhum dom, apenas um conhecimento de anos, uma dedicação bilateral, uma sensibilidade mútua.

Faz parte da minha vida, e é um dos meus melhores colos.

T.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.