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Feliz a tempo inteiro

Ser feliz é um trabalho a tempo inteiro

O maior objetivo de vida do ser humano comum já não é ter um carro aos 20 anos, uma casa aos 30, ou um tacho grande para a sopa aos 40. O objetivo é ser feliz. Tudo o resto gravita à volta desse propósito. Até aqui, tudo ótimo. Ainda bem que o ser humano está finalmente a pôr a sua felicidade acima do impulso consumista. No entanto, numa época em que nada é unicamente bom ou unicamente mau, assistimos a um fenómeno a que eu orgulhosamente batizei de “teoria da roda dos alimentos”.

À primeira vista, é uma coisa boa, mas após uma análise mais detalhada, descobrimos que afinal o leite faz mal. E nesta metáfora incrivelmente mal esgalhada, o leite representa os rituais que praticamos para sermos felizes.

 Vamos então perceber porque é que esta busca pela felicidade pode trazer tristeza. A felicidade de hoje passa em grande parte por sermos saudáveis e conscientes sobre o mundo em que vivemos. Logo, devemos focar a nossa energia no ofício de ser saudável e amigos do planeta. Infelizmente, para cumprir estes dois requisitos precisamos de tirar um mestrado em nutrição, uma licenciatura em neurologia e um doutoramento em desporto.

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Jogar à bola com os manos do grupo de whatsapp uma vez por semana já não chega, precisamos de treinos bi-diários no ginásio. Comer os vegetais já não chega porque afinal a alface tem químicos e faz mais mal do que bem. O pão engorda. O fiambre é feito de tudo menos de animais. Comer queijo é compactuar com os abusos da indústria alimentar. A manteiga então nem se fala, já só serve para barrar os escorregas dos parques aquáticos. Fazer uma sande tornou-se uma tarefa impossível de executar se quisermos dormir de consciência tranquila à noite. O café é uma droga. Olhar para um ecrã duas horas antes de ir dormir e duas horas depois de acordar faz tanto mal que afeta os nossos ciclos de sono. Andar de carro é o equivalente a espetar facas nas costas da mãe natureza.

As notícias são sensacionalistas e tendenciosas. Apanhar sol a mais dá cancro na pele. Apanhar sol a menos aumenta a probabilidade de doenças cardiovasculares. Se trabalhas pouco é porque és preguiçoso. Se trabalhas muito é porque és um workaholic. Fazer um refogado com azeite é um atentado ao colesterol. Acordar e tomar um banho gelado pela manhã é a única maneira saudável de começar o dia.

No meio deste trabalho todo, quando é que é suposto sentirmo-nos finalmente felizes? Temos de preencher o bingo de felicidade inteiro para podermos ser felizes? E se nos esquecermos de lavar os dentes com uma escova de bambu, seremos más pessoas?

Tudo é nocivo à saúde e apenas o que causa desconforto é bom. Sugiro um pequeno jogo: escolham uma ação, um alimento ou um hobby e pesquisem porque é que essa determinada coisa faz mal à saúde e vos está a deixar deprimidos ou ansiosos. Certamente haverá um artigo científico ou um vídeo de qualidade duvidosa do Youtube a comprovar o quão isso está a afetar negativamente o vosso bem-estar mental ou físico.

Agora, imagino que o leitor se esteja a questionar “depois deste cenário tão otimista que aqui foi criado, como é que é suposto encarar o resto do meu dia com positividade?”. Ao que eu lhe respondo, do alto do meu pedestal de conhecimento de pessoa de 21 anos, que, como em tudo na vida, é uma questão de equilíbrio. Encontrar as áreas cinzentas e pintar o melhor quadro possível com elas. 

Não nos deixemos cair no buraco dos extremismos e, acima de tudo, paremos com estas metáforas ridículas.

Bruno Rolo, é um Jovem Riomaiorense de 21 anos, Licenciado em Marketing Turístico e escreve às quartas-feiras no Rio Maior Jornal e respeita o AO90.

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Bruno Rolo
O meu nome é Bruno Rolo, sou licenciado em Marketing Turístico e a minha principal ocupação é trabalhar como responsável de Marketing e Comunicação. Gosto de comédia e tento sempre incorporá-la na minha escrita, ainda que na maioria das vezes fique pelo tentar.