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A Minha Vida

A Minha Vida

A pequenez é um vírus que persegue a humanidade.

A humanidade, uma espécie teoricamente maior, emocional, racional, capaz de se adaptar e de vencer, de descobrir a cura para a doença e o sentido para a vida, de matar o ócio e de avançar pelo trabalho e pela resistência.

É tão bonito falar de pessoas, que por vezes quase nos esquecemos dos fantasmas, dos medos, das dificuldades, da velocidade com que se atiram para o chão num obstáculo, numa perda, numa provação.

Eu juro-vos, eu sei que por vezes conheço de cor os meus caminhos, os meus objectivos, as minhas metas. A minha vida parece-me escorreita, funcional, direccionada, frontal, clarinha como água, não engana ninguém e muito menos a mim, que na prática é o que mais interessa.

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Mas depois há outros dias em que amanhece turva, mal disposta, devoluta, como se pertencesse ao mundo e não a mim própria, como se sucumbisse a uma espécie de sensação externa, alheia, guiada por agentes que eu desprezo, abomino e temo muito mais do que à própria morte.

Cá para mim estão enganados os que acham que já se conhecem de cor e salteado como à tabuada do nove, fácil fácil, mecânica, automática, basta um ligeiro raciocínio e aí vai ela de carrinho, sem espinhas.

Aproveitando o paralelo será mais uma conta cheia de rasteiras, casas decimais, números enormes e traiçoeiros, incógnitas várias, funções, probabilidades e especulações, o terror matemático no seu estado mais puro, mais primário, mais essencial.

É por causa disso que eu fujo a sete pés das pessoas sempre certas, cheias de certezas e verdades absolutas, que insistem em olhar para mim de cima como se soubessem mais do que eu (que de facto sei muito pouco), entretidas na ignorância das suas próprias vaidades.

Olham para mim de cima e às vezes ainda me dizem coisas estranhas, como que a empurrar-me para um optimismo no qual eu não acredito, e como se a minha busca infinita de respostas para as minhas perguntas fosse uma mania da perfeição interior, qualquer coisa de condenável e duvidoso (muito mais duvidoso, claro, do que a perfeição exterior).

Enganam-se todas, nem sequer é isso que eu procuro ou que me leva o meu tempo. O que me leva o meu tempo jamais seria a busca de qualquer plenitude, porque considero para mim mesma que o ser humano é um ser eternamente inacabado, evolutivo, e portanto com um potencial permanente para mudar, o que reduz a praticamente nada o almejo utópico de uma grandeza qualquer.

O que me leva o meu tempo, é este infindável constatar de pequenos nadas que nos atiram contra as paredes da nossa própria casa, estas viagens contraditórias para dentro do nosso eu mais interno, estes enganos no caminho que julgávamos conhecer como a palma das nossas mãos.

São estas incertezas a cada manhã, estes golpes que a vida nos apresenta sempre que já passou a sétima onda, altura em que esperávamos a bonança que afinal se enganou no caminho e só chegará quando chegar.  São os tropeções que a cada dia parecemos escolher para nós próprios, uma espécie de cambadela auto-direccionada, uma busca incessante de direcções, porque na realidade se pararmos ficaremos inertes num pantanal lamacento e propenso a bafio, em nada satisfatório, diria até, assustador. O que me leva o meu tempo, é uma incansável vontade de descobrir para onde se governa este leme, invariavelmente na proa do vendaval, indiscutivelmente pessoal e intransmissível ( quem o transmite, que Deus lhes valha), permanentemente num mar sem destino traçado, sem bússola orientada, sem marinheiros e  sem baldes para deitar fora a água que nos inundar pela retaguarda.

O que me leva o meu tempo é estar atenta, é decifrar as coordenadas improváveis, é saber que erro muito mais do que o que acerto, é ter a consciência de que no caminho muitos barcos me ajudarão, me darão luta, sabedoria, norte e direcção. Gosto de imaginar a minha vida assim, como uma regata a céu aberto, com velas, com remos, sem demasiadas guaridas ou excessivas regalias senhoriais.

No fundo, defendo que esta pequenez teimosa e duvidosa é de alguma forma o que nos faz existir, porque nos obriga a ser, a  procurar e a emergir outra vez. A suposta grandiosidade é por isso muito menos iluminada.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.