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Sabedoria

Produção ou Sabedoria

A terceira idade no tempo presente!

De há uns anos a esta parte, com a modernidade e os avanços da economia, o sistema de valores alterou-se, e o foco passou a ser a produção no lugar da sabedoria.

Os idosos de hoje em dia já não possuem uma posição sólida na hierarquia social. Os relatos históricos transportam-nos para eras onde os mais velhos eram detentores de um lugar estável, e onde o cuidado aos mesmos era efectuado como regra familiar, sendo indiscutível a sua prestação por parte dos mais novos.

Esta mudança de paradigma colocou as pessoas de idade num lugar mais vazio, e isso nota-se em todas as dimensões da nossa existência. Os lares surgem em massa para dar resposta às necessidades indiscutíveis da ocupação permanente dos familiares, e tornam-se num lugar onde a despersonalização pode tomar conta da vida dos nossos antecedentes, sem que na verdade nos possamos dar conta da dimensão do fenómeno. Só quem está lá dentro conhece o tamanho interno da palavra desenraizar. Tudo o que a pessoa vivei até entrar na estrutura passa a ser passado, componente histórica da sua vida, e os dias passam a ser uma rotina estabelecida pela dinâmica institucional, sem tempos, sem individualidades, sem hábitos, sem personalidade.

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Faz-se muito, na realidade. Na verdade, estas estruturas munem-se de técnicos formados e vocacionados para criar um cenário habitável, por vezes mais idílico, outras vezes menos aprazível, onde as actividades de estimulação ocupam o vazio de tudo o resto, para que o pensamento não se divague por territórios que façam mais doer. O foco chega a ser positivo, muitas pessoas comprometem-se a fazer o que podem para que os seus utentes não sejam apenas um número que vence o nome, mas na prática, o que sucede na história de vida é um acumular de rotinas em cadeia, onde o sentido fica para trás, perdido algures entre o que já se viveu e o resto dos dias.

Não é fácil redimensionar papéis numa época industrializada, capitalista, focada no produto e na evolução, onde o conhecimento nascido da experiência, parece não ser detentor de lugar. Vimos hoje como o mundo sucumbe ao poder dos territórios e do dinheiro, e depressa concebemos o desrespeito que se atribui à vida humana. Os valores crescidos nesta junção de necessidades e focos, não privilegia de forma alguma o papel individual de cada idoso, em sociedade. Num ápice, os valores mudam de forma, e não é inédito encontrar nas próprias famílias pessoas que tratam os seus antecedentes de forma prática e pouco pessoal, esquecendo que são pessoas e que necessitam do mesmo respeito de sempre. É fácil, quando a cadeia de humanidade não está bem alicerçada, deixar de lado os interesses e vontades de quem já viveu muito, se encontra de alguma forma dependente, e já não é detentor de um papel válido e eficiente. A vontade própria fica ténue, a dependência pode surgir, a personalidade, nem sempre fácil, pode acentuar, e o mais prático pode ser o caminho rápido da solução estereotipada.

Em pior condições podem estar os idosos que de alguma forma nem tenham acesso fácil a estruturas de apoio. Há carências económicas, solidão, excesso de burocracias e dificuldades imensas, que passam despercebidas aos olhos desatentos do mundo activo. Uma simples consulta pode ser muito difícil de conseguir. Uma aquisição de géneros ou medicamentos pode ser complexa de efectivar, por falta de meios ou por carência económica. Um dia vazio pode ser muito difícil de preencher, porque os ouvidos chegam cansados ao fim do dia, se é que chegam, e a repetição exaustiva de quem repete em todas as horas a mesma vida, não apetece a quem chega exausto de mais um dia de trabalho. E assim se somam e seguem o fim dos dias. Pior ainda, é a vida dos que vivem totalmente sós, sem ninguém de apoio e de retaguarda, entregues a caridade alheia e a redes de serviços sociais, que de formam alguma têm acesso todas as situações, nomeadamente as que se vivem nas grandes cidades.

Dotar os jovens e as crianças do valor da vida, pode ser o início de um caminho árduo, mas eventualmente possível. Olhar para a vida como vida até ao fim, e não como vida enquanto ser activo, será outro dos trajectos. Encontrar no idoso uma pessoa válida e humana, deverá ser o principal foco das próximas gerações, por forma a não nos tornarmos numa pequena máquina produtora de bens, mas vazia de afectos. Os afectos fazem parte da condição humana, e se conseguirmos prosseguir nesse registo, talvez um dia consigamos recuperar o respeito pela vida, em detrimento do valor da economia. Porém, seria pertinente perceber que este caminho faz-se com gestos e acções, e não só por palavras. As palavras soam a eco vazio, mesmo que gritadas alto e bom som.  

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.