O Bicho

O Bicho!

Um texto que sem mencionar o bicho, não deixa dúvidas a ninguém sobre o que estamos a falar!

Os que se julgam optimistas, os defensores do positivismo, os que apreciam elogiar a alegria em detrimento da realidade, poderão desde já abandonar este texto.

Desde o início que me incomodam os arco-íris pintados nas janelas, que mais não são do que um pseudo-recurso, falso, a pintalgar de cor de rosa as consequências danosas da peste, que assolou a humanidade em 2019.

A humanidade mudou, e pior, estão a mudar as crianças e os jovens que estão a crescer com ela. A questão não é obrigatoriamente fatalista, mas é tão assustadoramente real, que não nos é permitido escapar às consequências, e como em tudo, o diagnóstico é sempre a melhor solução, e a única possibilidade de mudança.

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O nosso foco, mudou de lugar. Hoje o foco centra-se na sobrevivência, como em qualquer guerra.

Desde o início que a peste nos colocou em estado de sítio. Primeiramente inundou-nos de medo e retirou-nos a liberdade, fez com que num ápice varrêssemos prateleiras de supermercado, esquecendo que os os recursos escassos devem ser divididos, e fez com que armazenássemos nas nossas despensas todas as provisões necessárias para sobrevivermos tempos de isolamento.

Depois disso reorganizou a sociedade. Matou milhares de pessoas em todo o mundo, mostrou que o mesmo vírus pode fazer cócegas na barriga ou ser mortal, desafiou a lógica da ciência e da cura medicamentosa, e reafirmou o lugar das grandes indústrias farmacêuticas, como um dos grandes centros económicos da realidade. Colocou-nos entre a espada e a parede, a deambular assustados no meio dos benefícios da protecção e dos riscos da inoculação, um lugar desorganizador que emite ondas de dúvida capazes de nos deixar inundados pelo patamar da dúvida e do medo.

Recolocou o sentido de vacina. A forma conhecida de prevenir doenças que neste caso apenas atenua a mesma, sem nos deixar perceber ao certo que efeito real exerce na toma das doses, primeiro uma, depois a outra, e depois ainda uma última, que daqui a um tempo poderá ser apenas mais uma das muitas que teremos de tomar, para podermos circular pelo mundo.

Fomos obrigados a seguir normas que nos retiram a liberdade sem que essa mesma liberdade nos seja retirada realmente, sob a forma de regras restritivas que beneficiam apenas quem escolhe ser inoculado, permitindo a quem escolhe não ser uma existência tabelada por um cotonete que entra no nosso nariz, vezes sem conta, roda e enfia-se numa espécie de tubo de ensaio, onde um rodopio de uns segundos nos indica se podemos continuar a andar pela rua, se podemos estar com a família, se podemos ir a um espetáculo ou a um evento desportivo, ou se, pelo contrário, necessitamos de ficar em casa, durante dias suficientes para que o bicho adormeça, ninguém sabe se de vez, se apenas por tempo indeterminado.

A imprevisibilidade do futuro afigura-se hoje como uma realidade mais clara do que nunca.

Nenhuma viagem pode ser agendada sem o aval das medidas de segurança, os países marcam-se uns aos outros como seguros ou não seguros, nenhum acontecimento pode ser festejado sem culpa, e a única grandeza válida e isenta de censura é a solidão.

A nossa missão parece ter-se reinventado, e o tradicional haja saúde, deixou de ser um lugar comum para passar a ser um bem inestimável, presente em todos os dias nas vidas de inúmeras pessoas, sempre muito visível na comunicação social, que parece ser a única a vibrar com tantos números desastrosos, emitidos diariamente em horário nobre, horário esse que há mais de dois anos que não conhece outra realidade a não ser dezenas, centenas, milhares de casos de internados, de cuidados intensivos, de mortes.

Os objectivos de vida condicionam-se todos os dias, as pessoas trabalham em casa, longe dos focos e das outras pessoas, os jovens aprenderam online, como se a vida se pudesse viver através de uma tela de poucas polegadas.

Ninguém tem culpa. Não há governo que tenha conseguido salvar o seu país. Não há familiares que tenham conseguido evitar que os seus ficassem doentes, e na realidade vivemos uma espécie de Ensaio sobre a Cegueira ligeiramente mais civilizado, mas com muito em comum. As técnicas de relaxamento, a relativização, a racionalização e a confiança na ciência podem ser recursos inestimáveis, preciosos aliados para enfrentar dias negros, futuros incertos, mutações e inúmeras variantes. Mas nos interlúdios dos dias, será necessário ver de perto a consequência de todos estes males, sob pena de nos tornarmos numa espécie de avestruz, no meio de uma tormenta, sossegada com a cabeça escondidinha na areia.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.