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Novo Ano

Reflexões de Novo Ano

Novo Ano Hábitos Velhos

O novo ano apanhou-me pensativa, introespectiva, imbuída num espírito crítico, nada a ver com a minha cond0uta habitual. Devagar circulei pelas ruas vazias da cidade, que acolheram o novo ano com um sossego pouco usual para a época, recheada de vida e de novidades diárias. Nunca a humanidade produziu tanto lixo, nunca se sentiu tão vazia com isso, mas continua a decidir ser por aí o caminho. Hoje, mais do que nunca, é visível a quantidade de desperdício que o ser humano constrói. Não sei ao certo para onde vai todo ele, e naquele dia vazio debrucei-me seriamente sobre o assunto. À medida que avançava sozinha na manhã, percorria com toda a minha energia o que se faria às caixas, aos frascos, aos blisters, à comida que atulhava os caixotes do lixo da cidade. Recuei à minha infância, passeio que faço muitas vezes, navegando nas memórias como quem procura respostas que parecem não querer chegar. Vá lá saber-se o porquê, mas tenho sempre a sensação de que é na sabedoria do crescimento, que encontrarei as respostas para os dilemas do meu dia a dia. Na minha escola existia uma biblioteca minúscula, com duas, três prateleiras de livros velhos, com folhas amarelas e gastas. Todos os fins de semana podíamos levar dois para casa, e ao fim de um tempo era inevitável a repetição da história, que se tornava nossa, e que passava a ocupar um lugar único na nossa vida (era assim que aprendíamos a sonhar). Na hora do recreio bebíamos um leite com chocolate que vinha dentro de umas embalagens com um desenho que se podia pintar. Essa mesma caixa era destinada a cada menino que a quisesse, alternadamente, pois ninguém possuía uma impressora que despejasse desenhos em catadupa, e os recursos necessitavam de ser distribuídos por todos (e assim aprendíamos a esperar). No Natal recebíamos roupa e algum enxoval (sim, sou do tempo em que os panos de cozinha bordados a ponto de cruz vinham embrulhados de casa de todas as vizinhas, para serem depositados numa arca de madeira, a fim de constituírem uma reserva de bens muito apreciada pela sociedade), sapatos que faziam mesmo falta e eventualmente alguns pares de meias e pantufas. Se tivéssemos sorte, lá chegava um coelho de chocolate ou um brinquedo, que fazia as nossas delícias, e que serviria, dali em diante, para horas esquecidas de brincadeira, de imaginação e de partilha (e assim aprendíamos que a vida é muito mais do que desperdícios, repetidos, todos iguais). Quando a avó fazia bolo, nós comíamos bolo, quando a avó fritava coscorões, nós comíamos coscorões, e se a D. Natalina cozia pão, nós comíamos pão. Ocasionalmente poderíamos escolher entre mais coisas, em dia de festa ou em algum aniversário, mas tirando alturas de festa a panóplia era reduzida, e resumia-se a leite com coqui, bolacha maria, pão com marmelada, nestum (e assim aprendíamos que para comermos, basta que haja comida, um bem precioso que não se podia desperdiçar). Ao longo do meu passeio, não cheguei a conclusão alguma sobre isto, como de resto me acontece tantas vezes. Não percebi a necessidade de desperdício brutal à qual sujeitamos o nosso planeta, nem consegui perceber a vantagem que encontramos na acumulação de bens em excesso. Não sei onde morrem, até porque o único local que temos para despejá-lo é dentro do nosso planeta, uma vez que não existe nenhum depósito suspenso na atmosfera, que em alguma espécie de órbita, o leve para muito longe. Concluí apenas algumas nuances secundárias do nosso funcionamento, coisas supérfluas, mas que naquela viagem comigo própria mereceram a minha atenção. De facto, todos nós produzimos vários saquinhos de lixo diário. Lixo de consumíveis, lixo tecnológico, lixo reciclável e lixo impossível de reaproveitar. E produzimos também toneladas de lixo pessoal, uma espécie de despojos do dia, arrumados em nós e no outro, quase sem nos apercebermos. Curiosa a semelhança entre eles. Ambos são exagerados, ambos são demais. Ambos se inundam de excesso, de mau odor, de presunção e de água benta. Ambos se vestem de vaidade e de ócio. Ambos ambicionam a grandeza, a ostentação, a ambição desmedida e egoísta. Ambos se arrumam em sacos de desperdício, uns mais enfeitados do que outros, uns mais imundos e visíveis a olho nu, outros acondicionados em caixinhas de madeira polida, envernizada, engastada com materiais nobres e considerados ricos pela sociedade. Nas madrugadas seguintes aos restos, quando a banda já passou e a folia adormeceu, todos jazem nos mesmos locais de despejo, todos representam o que sobra de nós, todos se enterram no mesmo lugar comum. É nestes desperdícios que encontro tantas respostas, disfarçadas mas cruas, empestadas de tanta verdade.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.