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A Hora da Ceifeira

A Hora da Ceifeira

Quando Chega a Ceifeira?

Lembro-me como se fosse hoje. Sentada na cama encontrava-se Maria com uma dentadura atravessada na garganta. Quando a encontrei julguei-a quase morta, de olhos esbugalhados para o tecto do quarto, no qual reluzia uma pequena luz redonda e muito brilhante. Fazia uns sons estranhos que me confundiram a actuação, que alternava entre o pedido de ajuda e a acção imediata, tudo porque jamais ousaria dar ouvidos aos meus instintos de fuga, os primeiros a aparecer na minha cabeça perante uma desgraça daquela dimensão.

Gritei por ajuda, e de repente tinha a minha pequena mão enfiada na garganta de Maria, agarrando uma pontinha de gengiva falsa e um dente postiço, ao mesmo tempo que com a outra mão lhe abria a boca com força. Quando a ajuda chegou já eu tinha na mão o aparato completo, que constituía na dentadura de Maria, intacta, na vida de Maria, ligeiramente atordoada, na minha prontidão e no meu nojo completo, que por momentos ficou atontado pela força da emergência.

Desde aí até agora, e perante inúmeros acontecimentos de carácter caricato, acabo sempre a pensar na razão da dependência, da velhice e da morte, que por vezes tarda em chegar, atrasada como só ela sabe ser. Pela minha parte arrisco dizer que se encontra quase sempre fora de horas, pecando por excesso ou por defeito, parecendo confundida, trapalhona, sem rei e sem norte, muito embora sempre certeira.

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Perante a sua eminência, já encontrei de tudo. Já encontrei o respeito do amor, o despeito da ganância, a frieza da distância e encontrei por vezes a solidão de olhos que num instante, se encontraram vazios de direcção, como se a cova levasse para o fundo da terra, todas as coisas para as quais se pode olhar.

Curioso como perante um mesmo acontecimento, os seres humanos conseguem actuações tão distintas.  Desde as irmãs que brigavam por um vison no leito da falecida, aos sobrinhos que nasceram às dezenas no dia da morte do tio rico, à filha que ainda hoje, muitos anos volvidos, não aceita que a mãe, quase centenária, não podia continuar a viver.

Perante isto acabo sempre por considerar que há mortes boas e mortes más, sem que este juízo tenha rigorosamente nada a ver com poder económico ou cultural, com proximidade ou com distância, com sorte ou com azar. Há pessoas intelectuais, carregadas de sabedoria e de saber, que perante a morte se afastam para se proteger. Há pessoas que têm medo de perder a compostura, e que por isso se escondem dentro delas próprias, engolidas por um semblante circunspecto e impenetrável, gélido, quase impossível de quebrar.

Estas mortes podem ser más, distantes, frias, solitárias, vividas apenas pelo próprio, que jaz sozinho sob o desígnio do disfarce e da razão. Depois temos por exemplo as pessoas de etnia cigana, que morrem em grupo, como ninguém. Ali não há medo de rir e de chorar, de gritar ou de correr. Não há respeito pelas regras, mas há respeito pela vida e pela morte, que se celebra e se sente como a um nascimento, de braços abertos, barulhentos, agitados, sentidos, pouco complacentes com as normas do silêncio e da sociedade.

Muitos não os apreciam, mas arrisco dizer que devem morrer como ninguém. De resto, cresci com eles muito perto de mim, e dali guardo memórias que me ficaram para a vida. O acampamento ficava sempre por trás da minha casa, e os banhos era num alguidar de plástico, fizesse frio ou calor. Os piolhos saltitavam da cabeça deles para a minha, mas o meu sangue, arisco por natureza, dizimava toda a bicharada que ali ousasse desovar. Talvez por isso escapasse sempre às carecadas que afligiam as meninas da aldeia, um tormenta efectuada com tesouras de costura, que prendiam nas mechas e que pareciam arranhar os cabelos fartos e povoados. Ainda hoje me lembro das músicas que dançavam em volta da fogueira, e lembro-me também da vida que emergia dos gestos, das preces, da fé. As memórias são francas, quentes, sentidas.

Não aprecio ousar falar sobre estes temas de uma forma leve. Porque os considero demasiado intensos para a ligeireza da modernidade, que vive entupida de gestos repetidos, falsos, enfeitados com uma rapidez construída na essência do vazio, um lugar onde o sentimento parece esquecido, mortiço e calado.

Houve uma outra vez em que Maria enfiou a aliança de oiro na língua. Certamente poderão pensar que a pobre senhora teria alguma espécie de fome, tal a velocidade com que tentava engolir objectos totalmente impossíveis de lhe atravessarem a garganta e de cumprirem a função alimentar.

Não me parece que fosse nada disso, era casual, acho que brincava perdida na sua vida demente, demasiado esquecida para qualquer tipo de intencionalidade. Conseguimos que não engolisse o anel, e daí em diante a família decidiu que viveria desprovida de artefactos, de carácter utilitário ou de carácter estético. Fui sempre contra. Não há nada que faça mais falta às pessoas do que a sua própria história. Nem que para isso a morte de adiante, ligeira, num dia de sol qualquer.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.