Natal

Natal

Natal: Nada é vivido de igual forma nas diversas fases da nossa vida.

Era sempre Inverno, isso nunca mudou, significando a constante que ainda me remete para casacos de agasalho, gorros, botas e luvas. O caminho também nunca mudava. Saíamos de casa pela estrada principal, seguíamos pela rua da escola, passávamos pela loja de electrodomésticos, pela casa do povo, e ainda pela casa da Dona Maria.

A casa da D. Maria era um lugar assustador e estranho. Lá morava uma menina adoptada que tinha uma mãe que a visitava uma vez por ano, uma senhora magra, alta e esguia, com uma cara afunilada e circunspecta. A menina era pequena e engraçada, e não raras vezes vinhas connosco, na empreitada que durava uma tarde inteira, quase até ao anoitecer.

Nessa casa, para além desta história que na altura povoava os meus terrenos incertos e estranhos, existiam outras particularidades deveras assustadoras, como um furão preso numa caixa grande coberta com uma trave de madeira, dentro da qual corria veloz, balizado pela prisão humana, um tremendo hábito ancestral das aldeias do interior.

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O marido de Maria era um homem enigmático, com um nome incomum e uma aparência um tanto ou quanto sinistra.

Seguíamos sempre pela berma da estrada até encontrarmos o caminho de terra que virava à esquerda, na direcção da fábrica das peles, chegando então ao sítio do mundo onde existe mais musgo. Não duvidem, é ali. Na terra onde as velhas me assustavam com lacraus, motivo pelo qual eu ia munida de facas de manteiga para raspar a terra e de lá retirar os tufos verdes com um cheiro inigualável.

Os mesmos eram depositados numa caixa de madeira, com muito cuidado para não os quebrar, e serviriam no regresso para construir o presépio recheado de figurinhas de barro que compunham a história, numa pequena colina que era colocada na sala, muito perto da mesa do jantar.

Nesse mesmo dia cortávamos um pinheiro natural muito desengonçado, que no local da colheita parecia sempre muito mais bonito do que no vaso onde o iríamos colocar. O final da tarde era sempre de uma alegria inigualável, porque nela nascia o início de uma época que naquela altura significava magia, sonho, fantasia, família, pessoas e comunhão.

Depois deste tempo houve muitas outras quadras natalícias, que me foram ensinando que o significado dos significados reside connosco no nosso corpo e nas nossas histórias, mas vai mudando com os Invernos que teimam em passar e em levar com eles grande parte da nossa vida. Porque nem sempre o Natal é igual. Muito embora algumas tradições se mantenham inalteráveis, há fritos que já não se amassam pelas mesmas mãos, bacalhau que já não chega com as couves porque se disfarça de outros enfeites menos tradicionais, mais modernos, eventualmente mais gourmet.

Nas mesas já não se reúnem todos os avós, todos os tios e todos os primos, e novas pessoas nasceram. Há outras tantas que já partiram para um longe que concebemos nas crenças e na esperança, e que deixam na mesa um lugar onde por vezes ainda se coloca um prato, a relembrar a presença que apenas reside na memória, o único lugar do mundo onde poderemos considerar algum conceito de eternidade.

É neste conceito que reside grande parte do Natal que conhecemos, porque em nenhum ano deixamos de lhe incluir todas as coisas que nos faltam, todos as pessoas que queríamos que estivessem, todos os pratos que ainda se sentem no nosso paladar, a saber a conforto e a recordações.

Nestes anos presentes, o Natal foi ainda mais diferente. Porque a união que sempre nos acompanhou deixou de ser permitida, e o cuidado assume-se como um salvador que nos protege a saúde física, mas que nos debilita a nossa saúde mental. É talvez um desafio à nossa existência, uma provação sobre as nossas prioridades, um convite à reflexão sobre a presença e sobre a espiritualidade. O simbólico, a força das relações, a confiança e a intensidade dos afectos, assumem-se hoje em dia como uma forma poderosa para contrariar a distância, o cuidado, o medo. Hoje mais do que nunca, é necessário confiar. Hoje mais do que nunca, é necessário cuidar. Hoje mais do que nunca, é necessário aproximar com o coração, para manter as ligações presentes e conservar o espírito da família e da união.

A minha mensagem vai simples e humilde, nesta direcção.  

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.