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Zangas. E se zangar também for evoluir?

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A tendência a não nos zangarmos connosco próprios, é talvez das maiores limitações da espécie humana. Daí até sentirmos que executamos tudo na perfeição do rigor, que não erramos nem quando é mesmo muito visível, de que não necessitamos de evoluir porque de alguma forma já nos encontramos acometidos pela absolutez da existência, vai um segundo mortífero, impeditivo da tomada de consciência do nosso próprio Eu, um território complexo e fascinante, mas por vezes demasiado cru para o olharmos de frente.

Trazer ao de cima do intelecto que alguma vez sentimos inveja, é mau. Parece menos bem, não age nada em nosso favor, mas na prática o único efeito produtivo desta negação é a ignorância sobre as nossas ambições. Assumir que efectuamos juízos de valor é desconcertante.

Falar da vida alheia gratuitamente é mal visto, passamos a ter associados a nós adjectivos clandestinos de negatividade, de maldizer, de má língua. Mas na prática o que conseguimos com esta não assunção, é a perpetuação do hábito de calçar os sapatos alheios sem lhe conhecer o terreno, os obstáculos, as intempéries, as frentes malignas.

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É assumir apenas a nossa pele e esquecer que na pele do outro há outro mundo que desconhecemos, por vezes oculto por capas negras de disfarces muito perfeitos (quase tão perfeitos como nós). Assumirmos que somos preguiçosos, é uma valente chatice. Bom é sermos trabalhadores, gostarmos de levantar cedo, agarrarmos o trabalho com garra e vestir a camisola sem lentidão, num ápice, de rompante. Mas na prática, e se efectivamente formos, esta negação irá fazer com que nunca possamos descobrir que estamos cansados do que fazemos, e que precisamos eventualmente de mudar alguma coisa, nem que seja no procedimento ou na cadência do dia. E assim permanecer para sempre na sombra da satisfação pessoal e da evolução.

Gritarmos por ajuda, pode dar a entender que somos fracos, débeis, é sempre melhor guiar o barco sozinho, na frente do leme, na proa do vendaval. Mas na realidade este acto de suposta coragem apenas nos vai cansar, e impedir que no acto da partilha e da evolução, possamos contar com outro remo, outro guia, eventualmente mais sereno e com um olhar mais largo, mais aberto, mais protector. 

Relegada frequentemente na educação (com a limitação das opiniões e o autoritarismo absoluto), encontramos a zanga como o parente pobre das emoções. É feio uma menina estar zangada, e os meninos obedientes também são mais bonitos. Mesmo quando aquela zanga tenta impor um limite ao outro, que faria todo o sentido se fosse escutado e atendido. Esta conduta condiciona-nos, coloca-nos num território de submissão, de redenção, mas torna-se ainda mais complexa, quando se estende ao nosso próprio Eu. Porque de alguma forma sentimos que colocar a nossa conduta em questão vai significar que não somos bons o suficiente, não sendo de todo essa a imagem que gostamos de colar ao nosso ego. Se conseguirmos reconhecer a zanga como motor de mudança, connosco próprios e com o mundo, ganhamos a possibilidade de acreditar nos limites que nos incomodam e na nossa evolução, condição sine qua non para que possamos vir a atingir outros patamares na nossa humanidade e na nossa superação pessoal. 

Convido-vos a um desafio. Sentem-se na mesa convosco. Dispam-se de preconceitos, de juízos de valor, de frases feitas. Dispam-se o mais possível de resquícios de condicionamentos educacionais, de comparações infrutíferas, de barulhos ensurdecedores que na vossa cabeça vos limitem os passos. Dispam-se ainda das vossas próprias vaidades e ambições desmedidas. Agora, olhem de frente para o vosso interior. Deixem que surjam os vossos medos, acolham as vossas desilusões, espreitem os recantos onde a zanga se alojou de mansinho, mas sempre a ferver. Dêem voz a estes sentimentos e vejam o que conseguem fazer com eles. Que terrores conseguem vencer, que revoltas ousam gritar, que passos poderão dar quando as amarras se cortarem rentes, sem hesitação. Aí, nesse exacto momento, ninguém vos escuta, são só vós ( eu sei, eu sei, coragem.) .

Não há voz que vos condene nem mão que vos agarre, são apenas vocês e o vosso próprio eu, nu, de frente para o mundo interior, o terreno mais adverso, mais mortífero, mais desafiante e mais evolutivo. Continuem Devagar, espreitem cada recanto do vosso materialismo, cada espaço de inércia, cada nesga de perfeccionismo e cada caderno escondido. Recuperem terrenos baldios, pantanosos, medonhos e incapacitantes. E zanguem-se, claro, sem medo, ninguém vai morrer por causa disso. Só nesse espaço de confronto, como em qualquer luta, como em qualquer guerra, poderemos avançar na prosperidade do encontro de mais um autoconhecimento para o nosso caminho. No final da reflexão, podem retirar notas produtivas que vos possam dar norte. ” não gostei de mim naquele dia.”, ” tive inveja, estarei feliz?”, “fui egoísta, que feio!”, ” Não lutei o suficiente, para a próxima, insisto mais.”. Ou ainda ” Se eu for mais atento e genuíno comigo, poderei ser mais inteiro.”

Não deve haver nada mais incapacitante do que viver sossegado, fracturado no desconhecido.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.