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contradições

Contradições

Contradições

A contradição será eventualmente a palavra do século. Alcançou-nos discreta mas insurgente, e agarrou todos os distraídos se passeava neste século da evolução, para num ápice os colocar sujeitos a uma espécie de prisão mental, a mais poderosa de todas as prisões (é mais fácil ser livre numa prisão real, do que ser livre numa prisão mental). Daí até dominar as acções do Homem foi um ápice, ora vejamos. Não há dia que passe no calendário do tempo, em que eu não encontre famílias com telefones que tocam a todas as horas (e por vezes a todas as desoras), criando regras contrárias para a juventude da casa, que não pode aceder aos dispositivos em determinadas alturas do dia ( seria bom, se fosse alargado a todos os elementos). O socorro defensivo vem sempre alicerçado à profissão, a eterna arma de resgate nas mais diversas ocasiões dos abusos evidentes, quer eles venham da conversa fiada, mais ou menos aceitável, caso eles venham da amante escondida, inconveniente como só ela sabe ser (tudo tem o seu lado lunar, até a mais lânguida das formas presentes).

Não há dia em que não vislumbre a crítica social dos mais “fortes” pelos mais fracos, dolorosa de tão visível, sob a forma de descriminação ou qualquer outra pequenez humana, óbvia ou simplesmente subtil, quando discreta se move numa linha que parece nunca ultrapassar o limbo do razoável, mas que é tão ou mais impositiva do que a declarada: fingir que não se vê a necessidade é o mais mesquinho de todos os preconceitos. Este género é sui generis.

Por vezes quase conseguem enganar o distraído, quando polidos, do alto do seu circuito social, fingem escutar com atenção as histórias que nos abrem os telejornais. A criança que morreu na praia. A família que se afogou no mar. Os povos que se vêm privados dos seus direitos pelo absolutismo da religião. É lá longe, dizem para eles próprios, numa auto protecção idêntica à que fazemos às criancinhas quando elas nos perguntam se na nossa terra, também há guerra.

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No seguimento da análise, olhamos para os pequenos seres em crescimento e contestamos que podem estar a desviar-se do essencial. Concluímos a confusão dos adolescentes perdidos nas redes informáticas da suposta evolução, e berramos bem alto que o mundo é lá fora. No pátio, no jardim, no campo da bola, a cortar a lenha, a apanhar a fruta, a circular de bicicleta ou a pé nos passeios da cidade. Tudo enquanto os educamos a olhar para dispositivos fixos de entretenimento que vão desde o canal Disney à Netflix para crianças ( 24 horas por dia, que maravilha), os botes salva vidas que deveriam ser usados em parcimónia e moderação, e que entretanto se tornaram na palhinha que permite respirar lá do fundo da solidão, a que tantas vezes são votados os dias do crescimento.

Tudo o que vivemos, é expectado. Tudo o que se apura hoje, desde a rejeição dos mais velhos à indignação pelas acções dos novos, tem sido desenhada ao milímetro num projecto megalómano, aplaudido e vivido em grande êxtase por uma ignorância global, que de momento assiste ao panorama na plateia mais próxima do “fim do mundo”. 

Hoje, já não é possível fingir que não há aquecimento global. Já não nos é permitido pensar que a inconsequência dos nossos actos é uma realidade (nada é por acaso). Já não podemos deitar a cabeça na nossa almofada e sonhar que a humanidade caminha para a sustentabilidade, para a sensibilidade, para um sistema de direitos e deveres concertado e global. Hoje, mais do que nunca, a empreitada é a tomada de consciência do acto. Uma tarefa que exige que as pessoas parem. Olhem para elas e para o mundo. Tentem compreender a coerência e o meandro complexo onde se introduziram, para eventualmente pararem de jogar em oposição.

Ainda há pouco assisti a um acesso de fúria na rua. Uma reacção a uma contrariedade, um homem que se sentiu afrontado, sentia-se no seu direito à indignação.  Num ápice passou da voz à acção, e se não fosse a contenção de alguém próximo, julgo que seria capaz de matar, tal era a força com que esmurrava uma parede da rua. “Eu não admito que me faltem ao respeito”, vociferava altíssimo, assustando os miúdos, as pessoas, os animais, a calçada. Alguém deveria explicar a este senhor que o respeito é uma palavra delicada, que envolve conceitos estruturais, para além da consciência da existência do outro. Tudo o que naquele momento não havia ali. Ali havia um Ego, a gritar pelo desconhecido.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.