Os Vazios

Vazios

Os Vazios

Dona Isabel não sabe minimamente o que fazer com os seus espaços de vazio. Não sabe como preenchê-los, não sabe que forma lhes dar, perde-se infinitamente nessa tarefa obscura que se mata a ela própria, como se fosse sensato deixar o tempo à mercê dele mesmo, sem rei e sem roque. Há dias em que aproveita e arruma as gavetas dos filhos, há sempre meias solitárias perdidas na confusão dos pares. Outras em que separa as camisas do marido, por cores, por géneros, por ocasião, como manda o figurino da organização e como manda a sua consciência, fiel depositária de todos os ensinamentos que lhe foram feitos pela sua mãe e pela sua avó, a mais visceral de todas as condutas. A bem da verdade, já era tempo de se libertar deles, pelo menos em certa medida, pensa para ela. Já era tempo de deixar ao encargo dos elementos da casa, o que pertence aos elementos da casa, ou seja, a César o que é de César, e deixar de uma vez por todas de se sentir a governanta do seu próprio lar, sendo que há dias em que apenas lhe falta o penteado elevado e a saia travada, sem racha atrás, a camisa vincada e o lenço a marcar o pescoço e a cobrir algum botão mais desleixado, pois de resto tem tudo. Mas não consegue. Mesmo que tente, aparece-lhe sempre o espírito, que persistente aparenta ser dono de uma carga genética significativa, um ADN no seu corpo, que mesmo no mais violento dos esforços sucumbe de impotência perante o cansaço. Dela para ela, em forma de resgate perante tamanho agouro que parece engolir-lhe a vontade, ainda que ela esbraceje ou escabuje, vai-se mentalizando pela tradição, pelo zelo, pelo cuidado, pela responsabilidade que na sua educação trazia sempre uma conjugação verbal contrária à gramática: primeiro eles, depois eu.

Um dia, afoita, decidiu inverter a construção imposta, que no presente já lhe carcomia as entranhas, já lhe desassossegava o viver, já lhe trazia mais inquietação do que a sua existência interna, ou seja, a sua balança começou a pender titubeante entre o dever e o ser, a vacilar entre a segurança da tradição, e a liberdade da mudança. Não conseguia perceber muito bem o que seria aquilo. Se um qualquer afrontamento, próprio de uma menopausa precoce, se uma vontade indómita, resquícios de uma juventude perdida, ou se uma revolta digna de Abril, daquelas em que os cravos e as forças se indignam de vez com a obediência cega do hábito, um território que tem tanto de organizador como de restritivo. Ficamos pela dúvida, por muito que pense, não sabe ao certo. Não faz a mais pálida ideia sobre o que se passa, sabe apenas que quando se permite a si própria ousar respirar de outra forma, existe sempre alguém que a recoloca no lugar da razão, como se recoloca um bibelô que desastradamente ficou fora do seu lugar.  

Eis senão quando, após batalhas e reposicionamentos, passou a olhar para os seus vazios. Experimentou fechar o olhos e calar-se, a ver se das entranhas esquecidas lhe nascia algum desembaraço, alguma fé, algum empurrão que em braços e em forças lhe fizesse descarrilar o andamento que parecia perfeito para todos, menos para ela. Ora vejamos. A velocidade é sempre igual, mas reduzida. Não se rende a espaços de manobra, segue fios rotineiros. Nunca permite grandes desvios, sob pena da carga não atingir o porto antes da hora da partida. Por outro lado, se acelerar em demasia perde o norte, o mais fiel de todos os trajectos, sem o qual se pode desgovernar numa bifurcação disfarçada de bom caminho ( uma tragédia). Foi avançando. Primeiro foi a medo, devagar, não fosse o embate empurrá-la ao ponto do não retorno para a vida louca, para o lugar das mulheres que não são boas, boas donas de casa, boas mães, boas esposas, boas no geral, saberia lá viver sob esse desígnio da sociedade (poucas sabem, a bem da verdade). Depois foi ajuizando o porquê das suas dores, horrores e cansaços, foi ajuizando o que lhe perturbava o ser, e pasmou-se com a quantidade de respostas que encontrou nos seus vazios, mais grávidos de respostas do que o seu próprio ventre na hora dos partos. Sem se dar conta, entrou mais dentro de si própria do que em toda a sua prévia vida, a dado momento foi necessário começar a engolir palavras e pensamentos, tal a velocidade com que se assumiam em ânsias, a brotar do seu íntimo com a fúria de um vulcão. Num ápice compreendeu a força que sempre a afastou deles. Eram as respostas. As respostas perante as quais a inércia e o hábito poderiam vir a morrer, desarmados, sem hipótese de dar continuidade ao jogo seguro da existência.

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Nesse mesmo dia, numa consciência tão clara, decidiu continuar a ocupar os seus vazios.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.