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Dia de Todos os Santos

Dia de todos os Santos

O Dia de Todos os Santos

Os  sacos bordavam-se num bastidor de madeira clarinha, um utensílio que na época era familiar às crianças que brincavam com carrinhos de linhas no chão. Faziam-se corridas alucinantes pelas ladeiras de terra batida, e os pobres rebolavam-se até à exaustão, atropelando-se uns aos outros como se o mundo dependesse daquela vitória. E dependia, o vencedor era sempre muito considerado, por mais arte e mais engenho, e não raras vezes calhava-lhe a tarefa de escolher a brincadeira seguinte, que poderia valer-lhe incontáveis e continuadas novas vitórias, era só saber escolher o melhor jogo para ganhar.

Neste dia um de Novembro todos os sacos bordados saíam para a rua e inundavam a aldeia, com sorrisos de crianças que broa a broa, romã a romã, o enchiam de uma alegria impossível de descrever por quem nunca a viveu.

Lembro-me de todas as casas e de todas as senhoras que, de lenço na cabeça e mãos enrugadas, me depositavam dentro do saquinho o que com cuidado e amor tinham confeccionado na véspera, nos inúmeros fornos de lenha espalhados pela aldeia. Lembro-me do cheiro delas, muito próprio, adocicado pela lenha e pelo fogão que ardia há horas, para que neste dia a família aparecesse para comer e celebrar. Lembro-me do carinho com que as minhas avós bordavam o saco, amassavam as broas, as benziam e as colocavam a crescer num alguidar de barro envernizado e brilhante, que nunca cedia, nem perante as investidas persistentes do bater da farinha, dos ovos, do açúcar, das mãos “ Que Deus te abençoe e te faça crescer…”.Lembro-me de chegar ao fim do dia e trazer comigo os doces, os bolinhos, as nozes e os figos secos, e ainda a esperança e a certeza de que aquele meu mundo iria durar para sempre, escrita na minha ingenuidade de criança, que por felicidade minha, ninguém matou.

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Não durou. Aquele meu mundo pertence a um território ancestral que o tempo acolheu no seu interior, levando com ele quase todas as pessoas, quase todas as tradições. Hoje o mundo escolheu modernizar o ritual e transformá-lo numa outra história, deixando à mercê das memórias os caminhos que se percorriam, e colocando o significado da generosidade num território muito menos social, muito menos abrangente, perdido entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, entre o eu e o outro.

À hora que escrevo este texto, posso afiançar-vos com elevando grau de certeza, que estaria por certo pertinho da casa de Dona Emília, uma senhora pequena e sorridente que se abria para a vida como ninguém. Na lojinha dela não faltavam beijinhos doces, rebuçados, línguas de gato e bolinhos diversos, que ela distribuía pela criançada ao mesmo tempo que nos brindava com uma ternura infinita e acolhedora. Vou tentar explicar. Há pessoas que no seu âmago nos constroem a possibilidade da confiança no seu humano, na bondade, na humildade. Há pessoas que por mais pequenas em tamanho concreto são de uma grandiosidade inexplicável, eventualmente pinceladas pelo génio da criação vezes sem conta, com toques e retoques, com borrões e mata borrões, com paciência, engenho, com rigor e perfeição. Há pessoas que não saíram do seu pequeno mundo físico, mas que ainda assim nos abriram as portas do nosso, escancaradas para o que é a vida, vá lá alguém perceber e justificar tamanha incongruência e impossibilidade. Há pessoas que eventualmente sem o saberem, ficam vincadas no nosso caminho, em todos os nossos sentidos, tatuadas na pele, viajantes no sangue, tripulantes da mente e do coração, e por isso permanecem sem nunca esquecer.

Invariavelmente ao fim do dia, depois de todas as passagens e de todas as paragens, despejávamos na mesa da cozinha tudo o que o saco trazia. Não raras vezes já traziamos outro, que alguém gentilmente nos tinha dado, porque o primeiro enchia-se num espaço mais pequeno do que um quarto da aldeia. Nessa noite o sono era sempre muito sossegado, devidamente embalado por toda aquela aventura, vivida anualmente como se fosse sempre a primeira vez.

No presente ano, tal como no passado, não bateram na minha porta as poucas crianças que resistiam ao final da tradição. Não me apareceu nenhuma, a subir a escada desenfreada, à espera de receber o Pão por Deus e um sorriso, eventualmente uma festa na cabeça a despentear-lhe o cabelo. Não me surpreende, claro, embora eu estivesse, como sempre, prevenida de doces tentações e uma vontade imensa de que tudo acontecesse como antes de eu crescer, como antes do mundo evoluir, como antes da pandemia do século nos desmanchar mais um bocadinho do hábito. Ficou-se-me pelo gosto de amassar as broas, de comprar os rebuçados, de acautelar que a tradição se manteria caso o mundo deixasse, e a vida continuasse a fluir de feição.

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.