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Saia

Saia de roda

A Saia de Roda

Todos os dias Maria ( nome fictício) abre com dedicação a porta onde entram os súbditos daquela comunidade. Entregou-se à tarefa com a dedicação de uma vida, e nela projecta todo o seu ser, desde a mulher à devota, desde a faceta profissional à faceta social. Não sei porquê, eventualmente por bengala ou limitação, decorou os ditos que profere ao milímetro, emitidos sempre com a mesma entoação, quer nos apresente um cumprimento, um pedido, um esclarecimento ou uma justificação.

Nunca usa mais do que meia dúzia de frases reduzidas a outras tantas palavras, que poderiam ser ditas por um robot com a mesma eficácia e execução de função (espero que por isto não me tomem por capitalista, jamais ousaria dispensar pessoas em prol das máquinas, não me aprazem minimamente as teorias defensoras da tecnologia, mas há excepções que se tornam por si só isso mesmo, excepções, ou apenas meros alvos de considerações).

Senhora de si, dá cartas no governo das salas de trabalho, da distribuição dos materiais a utilizar na celebração, nos livros a ler, na leitura dos textos que naquele dia servirão de reflexão alargada, na organização do chá e dos bolinhos que servirão de ponto final, ou não fora o estômago um fiel depositário de todas as nossas necessidades, e que uma vez satisfeito, não deixa margem para críticas insensatas ou sugestões impertinentes, ainda que carregadas de razão.

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Pela minha parte, confesso, costumo olhá-la de lado. Costumo fingir que distraidamente reflicto no tema a discutir, para, num acto de pura curiosidade lhe mirar os gestos, os passos, a confiança desconfiada, a certeza incerta, o medo disfarçado de pose e de prosápia. Quando de alguma forma se engana, ou se algum superior lhe enuncia um pequeno reparo, costuma rir com um sorrisinho nervoso e envergonhado, que num ápice se transforma numa frase pré concebida para a ocasião, que por certo bem justificará o erro, coisa usualmente de pouca monta, raríssimo, motivado certamente por algum imprevisto imponderável. 

Um dia destes, num dos meus usuais momentos contemplativos, devidamente disfarçados com as minhas artes de ladroagem dos gestos da vida alheia, encontro-a vinda da casa de banho, de cabelos arranjados e maquilhagem retocada por baixo da máscara, da qual apenas se via uma nesga de blush, muito cor de rosa, demasiado próxima dos olhos, que por sua vez se encontravam esfumados com arte, delineados a preto e a prata, deveria ter perdido ( ou terá ganho?) uns bons dez minutos na tarefa, que lhe valia certamente pelo ganho do dia.  Vinha efectivamente com o ar confiante de quem governa a casa, tudo (ou quase tudo, como se verá adiante) no seu devido lugar: as leituras, as vestes dos intervenientes, os comes, os bebes, os lugares sentados e os lugares de pé, o microfone, a música, os intervenientes, ela própria.

Circulava livremente por entre uma sala cheia de pessoas qual anfitriã orgulhosa, erguida no alto dos seus saltos demasiado altos para as suas costas, já ligeiramente encurvadas com o peso de alguns anos e de muita vaidade.

De repente e quando eu menos esperava, deparo-me com alguns sorrisos e olhares na sua passagem, que num instante me denunciaram uma saia presa no cós, o pesadelo de todas as mulheres, o que as faz alisar com as mãos a mesma sempre que se sentam, sempre que se levantam, sempre que se dirigem a algum local, ou sempre que em alguma situação se tenham eventualmente permitido a alguma nudeza no corpo. Tão habitual este nosso gesto que é quase impossível o seu esquecimento, pelo que me intriga o descuido, confesso, questiono-me a mim própria se seria cansaço, o vaticínio fatídico de todas as mulheres.

O meu instinto sintónico num ápice se ergueu para a auxiliar, não poderia permitir a uma congénere tamanha humilhação, nos entretantos já desfrutada pelo sexo masculino e troçada pelo feminino (que formas de gozo tão diferentes), que por momentos pareceu esquecer-se que ninguém se livra do incidente, uma vez na vida, eventualmente sem exemplo ou probabilidade de repetição.

Naquele exacto instante, e perante o pânico do seu olhar, encontrei-lhe de repente todas as fraquezas, mais despidas do que as suas próprias coxas.

Foi notório o medo do veredicto, o sentimento da falha, a fúria do desespero e mais do que tudo, a consciência de desamparo perante a fragilidade do momento. Ali, não havia frase feita que a salvasse. Não havia penteado que a elevasse, ou indumentária que lhe cobrisse a vergonha. Não havia palavras no seu limitado dicionário suficientes para minimizar o incidente, nem sentido de humor que lhe valesse na gestão da situação.

Retirei-a dali em poucos segundos (sempre me ensinaram a isolar pessoas em algum estado de maior choque), e tentei que se recompusesse para a continuação das festividades, não sem antes me mostrar solidária com o incidente, e complacente com a com a sua situação deveras delicada, um tremendo infortúnio. A muito custo voltou a si, e regressou à sala como se nada tivesse acontecido. Nem se permitiu a ela própria a serenidade do tal sorriso defensivo e cúmplice com a situação, isso para ela não tem validade, foge-lhe à rotina, não é digno de uso, não lhe ampara a existência regida ao rigor da eficiência, o único registo que conhece de cor e salteado. 

Eu regressei à minha espera, e enquanto isso deambulei por entre a fragilidade com que construímos a nossa própria identidade. É nela que criamos uma imagem ou várias imagens ( pessoal, profissional, social), é nela que nos projectamos no futuro e é nela que nos formamos para exercer uma profissão. É na confiança que ganhamos nela que nos tornamos gente, e é também nela que no ápice de um incidente poderemos desmoronar no chão, sem tapete, sem amparo, como um ninharia engolida pelo desgoverno cego de uma enxurrada, num simples momento de distracção. 

Por ora, continua a presidir a função. Continua a proferir frases feitas com poucos vocábulos de manobra, continua a não mudar de tom, continua a exercer tudo como se não destrinçasse o que justifica um ressoar mais baixo de uma palavra sigilosa, ou a efusividade de um grito de celebração. Tenho-a sentido apenas ligeiramente menos sorridente, e, com uma frequência elevadíssima, vejo-a a alisar a saia rodada, mesmo que gratuitamente, quando em momento algum a ousou arredar do seu lugar. 

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Carla Raposo Ferreira, é Psicóloga e escreve às Segundas-feiras no Rio Maior Jornal.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.