Gatos

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Há dias em que olho para ela e espero que me responda. Espero mesmo, parada, a olhá-la nos olhos como quem espera por um interlocutor atento e dedicado. Isto porque lhe conto a vida, os dias, lhe relato o quotidiano e a questiono, na sua sabedoria felina, sobre qual o remédio para lidar com pessoas com a mestria de um sábio, como só os gatos sabem ter. Invariavelmente, mira-me de olhos azuis, redondos, astutos, rápidos, mas nunca nos dias da vida me disse coisa nenhuma. Na maioria das vezes aceito, seria entrar numa impossibilidade utópica, mas em outras alturas chego a agitar-me na esperança de uma resposta conclusiva às minhas humildes questões. Nesses dias gera-se-me uma ânsia intensa e desconfortável, como se houvesse uma dessintonia entre o meu desassossego interior e a calma dela, excessivamente visível, perturbadora, desafiante, suprema. Fico com a sensação de que mesmo que eu sucumba à sua frente ali ela permanecerá quieta, impávida, serena, numa placidez que lhe invejo até ao mais ínfimo pormenor do meu ser. Há anos que convivo com eles e continua a intrigar-me o segredo dos seus critérios e a forma hábil com que escolhem os seus relacionamentos. Não sou de esoterismos supremos e não me perco em explicações casuísticas que não domino, nesta dimensão vale-me apenas a minha experiência de anos, válida de mim para mim.

Não há dia em que não me espere, inquieta, ao ouvir os meus passos apressados na escada. Não há dia em que não corra para arranhar o tapete enquanto lhe faço festas no cachaço, altura em que fica imóvel durante cerca de trinta segundos, a única hora do dia em que domino a sua existência. Daí em diante, é dona dos seus movimentos e das suas escolhas, que recaem com frequência sobre um puf redondo e castanho, onde se afunda para dormir, enrolada nela própria. Se eu tiver o azar de a incomodar, é animal para se enfurecer e afiar os dentes nos meus braços, com uma força tangente à pele, que na mais pura das magias não rasga, fica somente ofendida. Sabe como ninguém as horas, e mal o sol começa a cair desloca-se devagar para a cozinha, aguardando o patê malcheiroso de marca branca, o único que degusta com satisfação. Já tentei outros, no papel de dona cuidada. Já procurei as melhores marcas do mercado, gourmets, diamantes, doiradas, mas a bichana acredita nela própria e orienta-se pelo seu palato, certa de que nem sempre o caviar é o melhor prato.

Não é fácil engana-la com presenças indesejadas. Costuma analisar com calma quem ousa entrar no seu espaço, cheirando, dando turras, por vezes esfregando-se nas pernas do intruso. Se a respeitarem, tolera quem quer que seja, se a afrontarem pode ser uma péssima anfitriã, capaz de, sem a menor das cerimónias, expulsar um anjo ou um demónio. Ou melhor, expulsar quem ela sente que de alguma forma a incomoda. E é exactamente aqui que a invejo mais do que em qualquer outro lugar da sua existência: na confiança que deposita no seu instinto, e que lhe governa os actos imprevistos e irracionais, não raras vezes muito mais capazes do que a maior das racionalidades humanas, sempre engolidas por emoções desgovernadas que nos acometem o espírito. E antes que se insurjam os defensores da humanidade, que usualmente se engrandecem em detrimento dos animais, escusem-se. Em nada os vanglorio, e em nada nos desdenho. Este desabafo trata-se apenas de uma singela ambição que me inquieta o ser. Um almejar de uma perfeição impossível de conquistar, que aqui elogia a sabedoria do gato, como poderia elogiar a resistência da tartaruga, ou a força de um leão.

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Na prática, diverte-me encontrar na natureza conjugações que nos poderiam elevar a categorias superiores de existência. Por esta altura estarão muitos a pensar na devoção e dedicação do cão, o mais fiel de todos os animais, o que se deixou domesticar pelo homem como nenhum outro permitiu. Destes, e por muito que os adore, invejo pouco ou quase nada. Quiçá o faro, sempre atento e astuto, pouco susceptível a tramóias que possam surgir. Vantagem esta que na prática é engolida por uma lealdade que o pode matar na primeira emboscada, num ápice, numa penada. Obviamente sem que o pobre tenha tempo de abrir os olhos e perceber que se não confiar nele, por ele, não terá da vida grande caminho.

Por ora repousa estendida entre uma manta e uma almofada. Já bocejou inúmeras vezes, e já olhou para mim outras tantas. Já comeu, não se fizesse tarde. Mas ainda não me disse nada.

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.