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Vestir a Camisola

Eu cá que sou do Contra: Vestir a camisola, ou “evoluir” sem critério?

Vestir a Camisola ou Evoluir sem critério?

Na altura do ano em que milhares de jovens entram na escola, mudam de ciclo ou seguem para a universidade ( palavra fabulosa, com etimologia no Latim Universo), foco-me nesse trajecto e no objectivo que norteia o percurso escolar, e posteriormente profissional, dos nossos jovens.

Há muito que o passaporte para uma vida profissional tranquila não reside apenas num curso superior.

Há muito que o tecido empresarial do nosso país se regulamenta por índices menores de vencimentos, aproveitando alguma saturação de mercado, e permitindo que recursos viáveis procurem outras opções mais vantajosas, nem que para isso necessitem de sair de Portugal.

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Vejamos o empenho intelectual de quem decide abraçar um percurso académico ( e deixarei o financeiro mais de fora, que não será por certo menor). Após o término do décimo segundo ano, via ensino ou profissional, o jovem segue uma nova fase da vida, na qual durante alguns anos, dois (ensino superior profissional), três ou quatro (licenciatura), cinco (mestrado), ou ainda mais, em casos de doutoramento, percorre uma especialização que o deixa apto a executar uma tarefa específica na sua área de formação. O empreendimento é elevado. Perdem-se noites de sono, oportunidades de trabalho, gasta-se dinheiro, e estuda-se muito. Tudo isto sob a bênção do futuro, e com o apoio, na grande maioria das vezes, dos pais,  uma vez que também eles empreendem energia, horas de trabalho, dedicação e vencimentos, por vezes reduzidos, no melhor avanço para os filhos.

O início no mundo laboral após o término destes ciclos, tem  também as suas vicissitudes. Estágios, exames de ingresso, aceitação em Ordens, entre outras provações, são o que alguns jovens têm de enfrentar antes de se lançarem para o mercado “livre” da economia.

Uma vez nesse âmbito, já com o traje arrumado, as fitas benzidas e os livros nas estantes do sótão, passam para um outro ciclo, ambicionado, projectado, vivido mil vezes em sonhos, sempre à distância de um diploma que deveria dar acesso a uma profissão. E é neste exacto momento, quando a queda entre a vontade e a realidade se torna iminente, que há muitas vezes uma desconstrução do projecto inicial e uma redefinição de objectivos.

As primeiras entrevistas são similares umas às outras. A oferta é usualmente aquém do que se esperava, mas a miragem de arranjar emprego sujeita o jovem a uma aceitação rápida e pronta, de uma oportunidade pouco chamativa.

O salário é inferior ao estabelecido pelas tabelas de referência, as horas de jornada são mais do que as supostas, as regalias são inexistentes e a exigência é elevada. Mas nada disto arreda o pé de quem se esmerou e de quem procura, com afinco, um reconhecimento laboral. O projectos usualmente abraçam-se com força. Agarram-se com o anseio próprio de quem quer ver garantida a sua eficiência, e o tradicional “vestir a camisola”, termo suspeito, mas que se apregoa como qualidade inestimável, assume-se como um forma de vida.

O problema está na dissecação da expressão e na análise prática do que significa. Na génese, deveria significar uma entrega aos objectivos da empresa, uma motivação focada na proactividade, uma eficiência e competência traduzida numa ampla satisfação laboral, do colaborador e de entidade gestora, resumindo, num crescimento. Mas na realidade do quotidiano, apresenta um significado totalmente distinto, e esta análise qualitativa e evolutiva avalia-se antes por horas de trabalho extraordinárias, de preferência sem retribuição financeira, em concordância excessiva e eventualmente autocrática, e num apelo a uma dedicação alargada, cega, direccionada, incompatível com a continuidade de uma vida paralela. Não raras vezes, debaixo de um absolutismo mascarado de equipa, de uma manipulação submersa por meia dúzia de palmadas nas costas, num nome de “família”, que apenas serve para perseguir uma exploração discreta, e socialmente aceite. Ou não fora o trabalho o que nos salva. Ou não seja dele que se vive. Ou não seja lá que se encontra a virtude.

O trabalho de reversão inicia-se na política, claro, mas incentiva-se também em cada empresa, que pode escolher avançar ou estancar. Assenta em apoios, em análises financeiras, mas reside essencialmente na formação humana de cada líder.

Seria de elevada pertinência que a economia não se deixasse travar pelo capitalismo e pela vitória das novas tecnologias, numa miragem de crescimento que nos levará a uma espécie de limite impossível de conter. Há muito que detecto caminhos confusos, sedentos de fio condutor, tolhidos por ambições em nada coincidentes com evolução. Conceitos como qualidade de vida, saúde mental, e evolução profissional, são muitas das vezes relegados para planos quase inexistentes, num percurso corrido, muito semelhante a uma linha de montagem, impessoal, fria, sem qualquer rasgo de empatia e valor comum.

Estamos eventualmente na altura certa para avançar noutro sentido. Num pós pandemia ainda tímido, ainda pouco crente na sua vitória, ainda sem medalhas, sem taças e sem diplomas de mérito, necessitamos de reorganizar o papel e o valor da humanidade e do reconhecimento, do empenho e da ciência, como fundamentais para avançarmos a par e passo com a natureza, a mais forte de todas as forças. Sem investimento sério, sem respeito, sem trabalho direccionado e sem saber, ficaremos sempre aquém da sua exigência. Com tudo isto, também ficaremos, mas talvez um pouco menos.

E talvez resida aqui uma parte da nossa meta: já que não controlamos a natureza, que se evite a cegueira colectiva, e que se deixe que a inteligência e o valor humano, nos levem o mais perto possível da sua essência.

(Escrito ao abrigo da anterior ortografia.)

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Carla Raposo Ferreira
Psicóloga, Terapeuta do luto. Exerce clínica privada nos distritos de Santarém e Leiria.

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